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O Brasil é terreno fértil para construção offsite? (HIS)

Uma análise técnica, produtiva e estrutural sobre a Habitação de Interesse Social

Jose Marcio
Jose Marcio

Apr 10, 2026

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A industrialização da construção está em um ponto de inflexão no Brasil.

O tema já apareceu em diferentes momentos recentes. O que muda agora não é a narrativa, mas sim o contexto.

Nesta série de três artigos, discutiremos a aplicação da construção offsite à Habitação de Interesse Social (HIS) no Brasil, buscando analisar o tema sob uma perspectiva técnica, produtiva e estrutural.

Hoje quem escreve é o Jose Marcio Fernandes: engenheiro mecânico e empreendedor com 18 anos de experiência na indústria automotiva e 15 anos na construção industrializada de larga escala. Atualmente, é fundador e CEO da Kata Machines & Systems, pioneira no Brasil em tecnologias e implantação de fábricas para construção offsite, e cofundador da Tecverde, referência nacional na tecnologia wood-frame.

A industrialização da construção civil não deve ser entendida como uma tendência passageira, mas como resposta objetiva a um problema histórico do setor.

Em praticamente todos os países, a construção apresenta um padrão recorrente de baixa produtividade, elevada variabilidade de resultados e dificuldade crônica de previsibilidade.

No Brasil, esse quadro é ainda mais desafiador, pois se combina com um déficit habitacional persistente e com a necessidade contínua de produzir moradias em escala.

É nesse contexto que a construção offsite, especialmente aplicada à HIS, ganha relevância. A questão central, portanto, é:

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O Brasil é terreno fértil para construção offsite?

Tese da industrialização da construção

O relatório Reinventing Construction: A Route to Higher Productivity, do McKinsey Global Institute, publicado em 2017, oferece um dos diagnósticos mais consistentes sobre a baixa produtividade da construção civil.

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O estudo mostra que, ao contrário de setores como a manufatura, a construção praticamente não evoluiu em produtividade nas últimas décadas.

Mais importante do que esse diagnóstico é a tese central do relatório:

A adoção de modelos industriais, baseados em padronização, pré-fabricação e produção em escala, pode gerar ganhos de produtividade de cinco a dez vezes em partes específicas da construção (McKinsey Global Institute, 2017).

Figura 1 – Potencial de ganho de produtividade com industrialização (McKinsey, 2017)

Esse ganho, naturalmente, não se distribui de forma homogênea por todo o setor.

Ele depende de um conjunto de condições bastante claro: repetitividade, padronização, escala e previsibilidade. E é precisamente nesse ponto que a Habitação de Interesse Social se destaca.

A HIS opera, em geral, com tipologias repetidas, forte restrição de custo, processos mais racionalizáveis e necessidade de produção em volume.

Em outras palavras, trata-se de um segmento que reúne condições particularmente aderentes à lógica industrial.

Por isso, a tese da industrialização da construção encontra na habitação social um de seus ambientes mais promissores de aplicação.

O problema brasileiro é estrutural

No caso brasileiro, o tema da produtividade é ainda mais sensível.

Dados do Observatório de Produtividade Regis Bonelli, da FGV IBRE, indicam que a produtividade da construção civil no Brasil apresentou queda média de aproximadamente -0,6% ao ano entre 1995 e 2022.

Esse dado é particularmente relevante porque sugere que o setor não vem crescendo a partir de ganhos de eficiência, mas sobretudo pela incorporação de mais mão de obra e mais recursos ao processo produtivo.

Trata-se, portanto, de um modelo de crescimento com baixa maturidade industrial e com capacidade limitada de responder, de forma sustentável, à pressão por custo, prazo e escala.

É justamente por isso que a industrialização passa a ser menos uma alternativa e mais uma necessidade.

Quando um setor convive por tanto tempo com baixa produtividade, a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser estrutural.

O modelo McKinsey (2019): onde o offsite tende a crescer

Em 2019, o relatório Modular Construction: From Projects to Products, também da McKinsey, propôs um modelo útil para avaliar em quais mercados a construção offsite tende a encontrar condições mais favoráveis de crescimento.

A lógica do estudo se apoia em dois eixos principais:

  • De um lado, a demanda habitacional, medida pelo crescimento do estoque de moradias;

  • De outro, o custo relativo da mão de obra da construção, utilizado como indicador de pressão econômica por produtividade.

Figura 2 – Demanda vs custo de mão de obra (McKinsey, 2019)

A partir dessa combinação, o relatório organiza os mercados em quatro zonas.

Mercados com alta demanda habitacional e alto custo relativo de mão de obra tendem a ser os mais favoráveis à construção offsite, pois combinam escala com pressão econômica por eficiência. Já mercados com alta demanda, mas mão de obra relativamente barata, tendem a ser menos favoráveis.

Nos casos de baixa demanda, mesmo com custos elevados, a falta de escala reduz a atratividade de um modelo industrial. E, quando baixa demanda e baixo custo se combinam, o ambiente à transformação tende a ser extremamente desfavorável.

O posicionamento do Brasil

Dentro dessa lógica, Estados Unidos e Austrália aparecem como os mercados mais destacados no quadrante mais favorável ao offsite.

Ambos combinam demanda habitacional relevante, custo relativo elevado de mão de obra e pressão crescente por produtividade.

Não por acaso, esses países se consolidam como referências recentes na expansão de sistemas industrializados voltados à construção habitacional.

Ao trazer esse mesmo raciocínio para o Brasil, o resultado é bastante revelador.

Pelo lado da demanda, o país apresenta cerca de 72,4 milhões de domicílios, segundo o Censo 2022 do IBGE, e uma formação anual próxima de 1,25 milhão de novas unidades, o que equivale a um crescimento estimado entre 1,7% e 1,9% ao ano.

Trata-se, portanto, de um mercado com escala e renovação suficientes para sustentar processos produtivos mais industrializados.

Pelo lado do custo relativo da mão de obra, dados divulgados pela CBIC em abril de 2024 mostram que o salário médio de admissão na construção civil se situava cerca de 7% a 8% acima da média nacional, o que posiciona esse indicador em aproximadamente 1,08.

Essa combinação coloca o Brasil em uma zona tecnicamente favorável à industrialização da construção.

Mais do que isso, quando comparado aos demais mercados avaliados na lógica do relatório, o país pode ser interpretado como o terceiro mercado com maior potencial estrutural para expansão do offsite, atrás apenas de Japão e Austrália.

Figura 3 – Gráfico McKinsey com inclusão do ponto Brasil (X≈1,8 | Y≈1,08)

O paradoxo brasileiro

Apesar dessas condições favoráveis, a construção offsite no Brasil ainda apresenta participação muito reduzida no setor habitacional.

Em mercados mais maduros, os níveis de adoção são significativamente superiores: países nórdicos chegam a aproximadamente 45%, o Japão a cerca de 15%, a Alemanha a cerca de 10% e os Estados Unidos a aproximadamente 3%. No Brasil, essa participação é estimada em apenas 0,5%.

Do ponto de vista técnico, esse número não deve ser lido apenas como sinal de atraso. Ele revela, sobretudo, uma desconexão entre as condições objetivas do mercado e o modelo produtivo ainda predominante.

Em outras palavras, o país já reúne drivers clássicos de industrialização, mas ainda captura muito pouco do valor potencial associado a eles.

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Sob essa ótica, o baixo market share do offsite no Brasil deve ser interpretado menos como limite e mais como oportunidade.

Mercados pouco penetrados, quando combinam demanda elevada, escala e pressão por produtividade, tendem a oferecer espaço mais amplo para crescimento acelerado, consolidação de novos modelos e captura de ganhos ainda não internalizados pelo setor.

Por que o Brasil favorece o offsite em HIS

A resposta à pergunta emerge da combinação de nove fatores:

O primeiro deles é a demanda estrutural elevada.

O país convive com um déficit habitacional relevante – ainda na ordem de milhões de moradias – e com uma formação contínua de novos domicílios ao longo do tempo.

Esse fluxo recorrente garante escala e previsibilidade, dois elementos indispensáveis para viabilizar qualquer lógica industrial de produção.

O segundo é o custo relativo da mão de obra da construção.

Esse custo já se posiciona acima da média nacional, o que aumenta a pressão por produtividade.

Na prática, isso significa que o modelo tradicional passa a exigir cada vez mais recursos para entregar o mesmo resultado, tornando mais relevante a busca por sistemas capazes de racionalizar tempo, custo e execução.

A terceira condição é o alto grau de padronização da própria HIS.

O Brasil conta com programas habitacionais estruturados e relativamente estáveis há mais de quinze anos, como o Minha Casa Minha Vida.

Esses programas operam com tipologias repetidas, requisitos técnicos definidos e escala recorrente – exatamente o tipo de ambiente onde a industrialização tende a capturar mais valor.

Há também uma aceitação cultural já comprovada.

Casos como Tecverde, Alea, SteelCorp e CMC Modular somam mais de 16 mil unidades executadas em diferentes regiões do país.

Isso demonstra que o modelo já foi aplicado em contextos diversos e não está restrito a iniciativas pontuais ou experimentais.

Outro fator relevante é o ambiente regulatório maduro.

O país já dispõe de instrumentos consolidados, como o Minha Casa Minha Vida, o PBQP-H, o SINAT/DATec e a NBR 15575.

Esta última é particularmente importante por ser uma norma baseada em desempenho, e não prescritiva – o que permite a adoção de novas soluções construtivas desde que os requisitos de desempenho sejam atendidos.

Também merece destaque a evolução recente da medição em fábrica.

Em 2025, a Caixa Econômica Federal passou a permitir a medição da produção ainda em fábrica para sistemas offsite.

Esse ajuste reduz a exposição de capital ao longo da obra, melhora a previsibilidade do fluxo de caixa e contribui para maior segurança financeira dos empreendimentos.

Do ponto de vista industrial, o país já conta com uma base relevante.

Existe uma cadeia de suprimentos consolidada para diversos componentes de sistemas offsite, incluindo perfis de aço formados a frio, painéis estruturais, placas cimentícias, drywall e isolantes – elementos essenciais para viabilizar a produção industrializada.

Além disso, houve avanço recente na produção de equipamentos.

Desde 2025, o Brasil passou a contar também com fabricação nacional de máquinas e equipamentos para construção offsite.

Isso reduz a dependência de importações, que historicamente representavam uma barreira relevante, tanto pelo custo quanto pelos prazos e riscos de implantação.

Por fim, existe oferta de financiamento para investimento industrial.

Linhas disponíveis via BNDES e FINEP melhoram as condições de estruturação de fábricas e expansão de capacidade produtiva – um ponto crítico em um modelo intensivo em capital.

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Isoladamente, nenhum desses fatores é suficiente. Mas juntos, eles configuram um ambiente que raramente aparece de forma tão completa.

Conclusão

A evidência reunida aqui aponta na mesma direção: o Brasil é, sim, terreno fértil para construção offsite em Habitação de Interesse Social.

O país reúne demanda, escala, padronização, pressão por produtividade, base regulatória e condições industriais em evolução.

Isso não significa que a transformação ocorrerá de forma automática. Significa, sim, que os fundamentos necessários para sua expansão já estão presentes.

O Brasil não carece de condições para industrializar a construção habitacional. O que ainda falta é transformar esse potencial em execução coordenada.

A permanência do modelo tradicional, diante desse contexto, não é apenas ineficiente – é economicamente insustentável no médio prazo.

No próximo artigo

Se as condições estruturais estão dadas, por que o offsite ainda não escala no Brasil?

No próximo artigo da série, iremos nos aprofundar nos ciclos históricos do setor, nos modelos testados e nos fatores que efetivamente limitam – ou destravam – a adoção em escala.

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