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Este é o segundo artigo de uma série dedicada à análise da construção offsite aplicada à Habitação de Interesse Social (HIS) no Brasil.
No artigo anterior, demonstramos que o país reúne condições estruturais favoráveis à industrialização da construção — combinando demanda elevada, padronização do produto e pressão por produtividade.
Diante desse diagnóstico, hoje vamos compreender como essa indústria evoluiu no país e, sobretudo, em que estágio de maturidade se encontra.
Hoje quem escreve é o Jose Marcio Fernandes: engenheiro mecânico e empreendedor com 18 anos de experiência na indústria automotiva e 15 anos na construção industrializada de larga escala. Atualmente, é fundador e CEO da Kata Machines & Systems, pioneira no Brasil em tecnologias e implantação de fábricas para construção offsite, e cofundador da Tecverde, referência nacional na tecnologia wood-frame.
Formação inicial: base industrial e primeiros empreendimentos
FASE 1 (2011 - 2014)
A construção offsite aplicada à HIS no Brasil tem sua base estruturante ainda em 2011, com a publicação da primeira diretriz técnica para sistemas industrializados no âmbito do SINAT, voltada ao Light Wood Frame.
Esse marco estabelece o primeiro referencial normativo para o uso da tecnologia no país.
Em 2012, inicia-se a implantação de uma operação fabril em Pelotas (RS), conduzida pela construtora Roberto Ferreira, com apoio técnico da Tecverde.
Essa operação possibilitou a execução do Residencial Haragano, no âmbito do programa Minha Casa Minha Vida (Faixa 1), com 280 unidades habitacionais em tipologia de sobrados.
Trata-se da primeira aplicação consistente da lógica de produção industrial em habitação social no país, demonstrando viabilidade técnica em escala real.

Residencial Haragano, Pelotas/RS
Nos anos subsequentes, a fábrica de Pelotas foi utilizada para execução de novos empreendimentos no Rio Grande do Sul, permitindo a formação de uma base técnica inicial e o desenvolvimento de competências operacionais ainda incipientes, mas fundamentais para o setor.
Em 2013, é emitido o primeiro Documento de Avaliação Técnica (DATec), permitindo a validação formal do sistema no mercado brasileiro.
Em 2014, houve um salto tecnológico com a implantação da primeira fábrica automatizada de habitações do Brasil, pela Tecverde, em Araucária (PR).
A unidade foi equipada com linhas industriais completas, incluindo sistemas automatizados para produção de painéis estruturais de paredes, pisos e forros, além de processos de usinagem com alto nível de precisão.

Fábrica Tecverde Araucária
Esse movimento marca a transição de uma operação inicial para uma base produtiva com características efetivamente industriais.
Ampliação normativa e de tipologia
FASE 2 (2016 - 2018)
A partir de 2016, o setor passa por um avanço crítico: a ampliação normativa que viabiliza edificações multifamiliares com sistemas industrializados.
Por meio de um projeto estruturado de inovação, liderado pela Tecverde e com participação de instituições como IPT, IFBQ, Caixa Econômica Federal e agentes privados, foi realizada a revisão da Diretriz SINAT 005.
Esse processo envolveu missões técnicas internacionais, transferência de tecnologia e validação de desempenho em contexto nacional.
Como resultado, tornou-se possível a execução de edificações de até 4 pavimentos com sistemas offsite no Brasil.
Paralelamente à evolução normativa, foram executados os primeiros edifícios multifamiliares industrializados no país, em parceria com a construtora CRM, consolidando a viabilidade do modelo em maior densidade.
Em 2018, o Residencial Pinhais Parque, desenvolvido em parceria com a construtora Valor Real, foi considerado o primeiro empreendimento HIS offsite com certificação GBC Condomínio no Brasil.
Esse período consolida a viabilidade técnica, normativa e tipológica da construção offsite no país.
A pandemia como acelerador tecnológico
FASE 3 (2020)
O ano de 2020 representa um ponto de aceleração relevante para o setor, ainda que fora do escopo direto da HIS.
Durante a pandemia de COVID-19, foram executados sete hospitais definitivos por meio de sistemas industrializados, em parceria entre Brasil ao Cubo e Tecverde.
Os empreendimentos foram entregues com prazo médio de aproximadamente 35 dias entre contratação e início de operação.

Produção modular de hospitais na pandemia
Embora esses projetos não estejam diretamente associados à habitação social, sua relevância para o setor é significativa.
Eles demonstraram, em condições críticas, a capacidade da construção offsite de operar com elevada previsibilidade, redução substancial de prazos e execução em escala.
Esse ciclo contribuiu para acelerar o desenvolvimento tecnológico, a padronização de processos e a maturidade industrial do setor.
Mudança de escala: entrada de grandes players
FASE 4 (2022)
O ano de 2022 marca um ponto de inflexão na trajetória da construção offsite no Brasil, com a entrada das principais incorporadoras de HIS no modelo.
A MRV executa o Residencial Turim, em Ribeirão Preto, com 238 unidades habitacionais, demonstrando a viabilidade do uso do offsite em escala dentro do mercado tradicional.
Simultaneamente, a Tenda estrutura sua operação industrial por meio da criação da Alea, com a implantação de uma fábrica em Jaguariúna (SP), com investimento estimado em aproximadamente R$ 300 milhões e capacidade produtiva de aproximadamente 10 mil unidades habitacionais por ano.

Fábrica Alea Jaguariúna
A entrada desses agentes representa uma mudança estrutural, ao deslocar o offsite de um modelo experimental para uma estratégia industrial integrada ao núcleo do mercado habitacional.
Apoio governamental e institucionalização do modelo
FASE 5 (2023-2025)
A partir de 2023, observa-se um avanço significativo na participação do setor público como agente indutor da construção offsite.
O projeto de reconstrução de São Sebastião (SP), contratado pelo governo do estado e executado pela Tecverde, representa um marco relevante, com a execução de 518 unidades habitacionais entregues em aproximadamente seis meses de montagem, incluindo edificações multifamiliares.
Esse projeto evidencia a capacidade do modelo de atender demandas emergenciais com velocidade, previsibilidade e escala.
No entanto, é no Rio Grande do Sul que se observa um dos movimentos mais estruturantes para o setor.
Diante dos eventos climáticos extremos, o governo estadual passa a estruturar licitações específicas para reconstrução habitacional utilizando sistemas offsite. Em 2024, a empresa CMC Modular é contratada para execução de 1.000 unidades habitacionais.
Nesse contexto, a CMC estabelece parceria técnica com a Kata Offsite, estruturando uma operação produtiva em Mirassol (SP), posteriormente expandida para São Leopoldo (RS), aproximando a produção do local de demanda e aumentando a eficiência logística.
Em 2025, novas contratações ampliam esse volume para mais de 3.000 unidades, consolidando o papel do governo do Rio Grande do Sul como um dos principais vetores de indução da construção industrializada no país.

Obras de reconstrução RS
Consolidação industrial e redução de barreiras tecnológicas
O período entre 2023 e 2025 marca a consolidação da base industrial da construção offsite no Brasil, com avanços simultâneos em capacidade produtiva, maturidade operacional e estrutura tecnológica.
Destaca-se a implantação da fábrica da Techome, voltada à produção de HIS e habitação de maior padrão, já incorporando uma lógica produtiva industrializada.
O avanço mais relevante desse período está associado à nacionalização dos equipamentos, que altera de forma estrutural a dinâmica do setor.
Historicamente, a implantação de fábricas dependia da importação de equipamentos, o que implicava alto investimento inicial, prazos longos e elevada complexidade de implantação.
A inauguração da fábrica da SteelCorp, em Cajamar (SP), representa um marco nesse processo. A unidade foi equipada com tecnologia 100% nacional, fornecida pela Kata Machines & Systems, incluindo múltiplas linhas automatizadas para produção de painéis estruturais.
A fábrica conta com seis linhas de produção, capacidade instalada de aproximadamente 10 mil unidades habitacionais por ano e foi implantada em menos de sete meses, configurando-se como a maior fábrica de casas em Light Steel Frame da América Latina.

Fábrica SteelCorp Cajamar
Esse movimento reduz significativamente a barreira de entrada no setor, ao eliminar a dependência de equipamentos importados e viabilizar a industrialização com base em uma cadeia produtiva nacional.
Paralelamente, a Caixa Econômica Federal passa a permitir a medição da produção ainda em fábrica para sistemas offsite, promovendo maior alinhamento entre o modelo industrial e a estrutura financeira dos empreendimentos.
Evolução da produção e estágio atual
Apesar dos avanços tecnológicos e institucionais, entre 2012 e 2022 a produção de habitação offsite no Brasil permaneceu limitada, não ultrapassando, em média, 1.000 unidades por ano.
A partir de 2023, observa-se uma inflexão relevante, com crescimento acelerado da produção, caracterizando uma curva exponencial entre 2023 e 2025, atingindo aproximadamente 4.000 unidades anuais.

Evolução da produção de HIS offsite no Brasil
Ainda assim, esse volume representa cerca de 0,5% da produção total de HIS no país, evidenciando que o setor permanece em estágio inicial de penetração.
Conclusão: da fase pioneira à fase de escala
A trajetória da construção offsite em HIS no Brasil evidencia a transição entre dois momentos distintos.
A fase dos pioneiros, caracterizada por desenvolvimento tecnológico, validação normativa e primeiros casos de aplicação, foi em grande medida superada ao longo da última década.
O setor entra agora em uma nova fase, orientada à consolidação industrial, ganho de escala e eficiência operacional.
Nesse contexto, o momento atual deixa de ser dos pioneiros e passa a ser dos settlers: agentes capazes de estruturar operações, capturar escala e transformar uma tecnologia já validada em indústria.
As principais barreiras iniciais foram superadas. A base tecnológica, normativa e industrial já está estabelecida. Ao mesmo tempo, o nível de penetração permanece extremamente baixo.
Esse é, tipicamente, o ponto de inflexão de um ciclo de expansão.

Figura final – evolução da construção offsite no Brasil
Próximo artigo
Se a tecnologia está validada, a indústria estruturada e o apoio institucional crescente, a questão que permanece é:
Quais são as barreiras que ainda limitam a escala da construção offsite no Brasil?
No próximo — e último — artigo da série, serão analisados os principais entraves estruturais do setor, bem como possíveis caminhos para sua superação.
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