
ABERTURA
Todos os anos, a Forbes Fintech 50 tenta responder uma pergunta simples: quais startups estão realmente redefinindo o sistema financeiro global?
A lista avalia critérios como crescimento, inovação tecnológica, adoção de mercado e sustentabilidade do modelo de negócio.
Para serem elegíveis, as empresas precisam ter sede ou operação relevante nos EUA e não podem ser companhias de capital aberto.
Historicamente, esse ranking funciona como um termômetro antecipado da infraestrutura financeira do futuro.
E a mensagem das edições mais recentes é clara: o setor entrou em uma nova fase.
Se na última década a narrativa dominante era a disrupção dos bancos tradicionais, com neobanks captando bilhões e queimando caixa para crescer, o cenário atual é outro.
Hoje, o mercado premia empresas que resolvem problemas operacionais caros e invisíveis da economia financeira.
A nova fase das fintechs
Três mudanças estruturais aparecem com clareza na lista mais recente.
1. A B2B-ização do setor
A primeira mudança é o deslocamento do foco do consumidor para as empresas.
Na lista mais recente, 31 das 50 fintechs atuam predominantemente no modelo B2B, oferecendo infraestrutura financeira para outras companhias.
Isso inclui soluções como:
pagamentos
gestão de despesas corporativas
automação financeira
verificação de identidade
procurement e auditoria
O insight é simples: a maior parte do custo do sistema financeiro está nos processos corporativos, não nos aplicativos do consumidor.
2. A volta da disciplina financeira
Durante o auge das fintechs, muitas empresas cresceram sustentadas por capital de risco.
Agora, investidores passaram a exigir eficiência operacional e economia unitária saudável.
Na lista mais recente:
13 empresas reportaram lucro
no ano anterior eram 8
O mercado deixou de premiar crescimento a qualquer custo e passou a valorizar modelos sustentáveis.
3. IA como infraestrutura
A inteligência artificial também mudou de papel.
Se antes aparecia principalmente em interfaces e chatbots, agora está sendo usada para automatizar processos financeiros complexos.
Essas empresas não estão reinventando o banco.
Estão eliminando tarefas humanas caras e lentas dentro da infraestrutura financeira.

O recorte que mais interessa ao mercado imobiliário
Quando observamos a lista sob a lente do setor imobiliário, algo interessante aparece.
Poucas fintechs da lista foram criadas exclusivamente para real estate.
Mas várias delas estão resolvendo problemas fundamentais do setor, como:
acesso a crédito
pagamentos de aluguel
gestão de fundos
auditoria financeira
tokenização de ativos
Ou seja: a transformação financeira do mercado imobiliário está sendo puxada por fintechs horizontais – não apenas por proptechs.
A seguir, alguns dos casos mais relevantes.
As real estate fintechs que figuram na lista
Algumas fintechs da lista ajudam a entender como a infraestrutura financeira do mercado imobiliário está mudando.
A Aven, que já comentamos em edições anteriores, criou um cartão de crédito garantido pelo valor do imóvel (home equity).
O diferencial é simples: usar o patrimônio imobiliário como colateral para oferecer crédito com taxas muito menores que as de cartões tradicionais.
Nos últimos meses a empresa levantou US$110 milhões, atingindo valuation de US$2,2 bilhões, e começou a expandir sua tese para algo que chama de “machine banking” baseado em ativos.
A ideia é tratar o imóvel como uma infraestrutura programável de crédito.
Por meio de APIs, plataformas podem consultar o valor do imóvel, calcular automaticamente o limite disponível e originar crédito quase em tempo real.
Na prática, isso abre espaço para que marketplaces imobiliários, apps de gestão patrimonial ou plataformas de reforma ofereçam crédito dentro da própria jornada digital.
Outro caso interessante é o da Bilt Rewards, também já discutida em edições anteriores.
A empresa transformou algo banal – pagar aluguel – em um programa de fidelidade. Inquilinos acumulam pontos ao pagar aluguel, algo que historicamente nunca gerou benefícios financeiros.
Nos últimos meses a empresa levantou US$250 milhões, alcançando valuation de US$10,75 bilhões, lançou uma nova geração do seu cartão (Bilt Card 2.0) e começou a expandir o modelo também para pagamentos de hipotecas.

Hoje a plataforma já possui mais de 5 milhões de usuários e movimenta mais de US$100 bilhões por ano em pagamentos ligados à moradia.
Outras empresas da lista atuam mais na infraestrutura do crédito e do investimento imobiliário.
A Figure usa blockchain para registrar e securitizar empréstimos hipotecários na rede Provenance, reduzindo processos que normalmente levam semanas para quase tempo real.
A Securitize, por sua vez, trabalha com tokenização de ativos reais, permitindo transformar fundos ou participações imobiliárias em tokens digitais negociáveis – um passo importante para aumentar liquidez em ativos tradicionalmente ilíquidos.
Já a Maybern resolve um problema menos visível, mas bastante comum no setor: o back-office financeiro de fundos imobiliários. A empresa criou um software que automatiza a contabilidade e a distribuição de resultados, substituindo modelos complexos baseados em planilhas.
Embora seja uma fintech B2B horizontal, seu produto nasceu justamente para resolver a complexidade da gestão financeira em estruturas de investimento – algo particularmente relevante para fundos e veículos imobiliários.
O verdadeiro insight da lista
A Forbes Fintech 50 deste ano não celebra aplicativos chamativos.
Ela revela que a próxima geração de fintechs não está tentando reinventar bancos.
Ela está fazendo algo mais poderoso: reconstruindo a infraestrutura financeira que sustenta a economia real.
Nunca foi tão verdadeira a frase “no futuro toda empresa será uma fintech”.
RADAR PRO
Quando a fábrica vai até a obra
Durante décadas, a industrialização da construção seguiu a mesma lógica: constrói-se uma grande fábrica, produz-se em escala, transporta-se até a obra.
O modelo faz sentido no papel. Na prática, criou um problema que poucos conseguiram resolver.
Fábrica grande precisa de volume constante.
Sem volume, não há escala.
Sem escala, o custo não fecha.
Sem custo competitivo, não há demanda.
E a demanda não surge porque o custo não fecha.
O chicken-and-egg problem da construção industrializada – e o principal motivo pelo qual tantas apostas nesse setor não chegaram ao destino.

Foi tentando escapar dessa armadilha que surgiu um conceito que ainda é pouco discutido no Brasil: a microfábrica de construção offsite.
A ideia inverte a lógica.
Em vez de levar a obra até a fábrica – seja em forma de módulos, painéis ou componentes –, você leva a fábrica até a obra.
Compacta, containerizada, frequentemente automatizada. Um sistema de produção que se move conforme o projeto, não o contrário.
Empresas como AUAR, Facit Homes e Cuby já operam nessa direção, cada uma com um nível diferente de automação e escala.
E o modelo de negócio também começa a mudar: algumas startups testam o conceito de factory-as-a-service, onde o construtor assina acesso à capacidade produtiva em vez de comprar o equipamento.
Na edição dessa semana do Radar Pro falamos sobre:
Por que o modelo de grande fábrica centralizada travou – e o que a microfábrica resolve
Os cinco níveis de maturidade tecnológica de uma microfábrica, do manual ao agêntico
Os cases de AUAR, Facit Homes e Cuby: três abordagens diferentes para o mesmo problema
Como o factory-as-a-service pode transformar CapEx em OpEx e acelerar a adoção
O cenário brasileiro – e a provocação sobre quem vai controlar essa infraestrutura
INVESTOR TRACK
Crowdfunding, CDI e FIIs: quem leva a melhor?
O crowdfunding imobiliário deixou de ser periférico no mercado brasileiro.
Em 2025, o volume captado pelas plataformas chegou a R$ 3,9 bilhões. Novos limites regulatórios, processos mais maduros e uma base de investidores recorrentes mudaram o perfil do segmento. O capital institucional começou a prestar atenção.

Mas crescimento não é tese de investimento.
A pergunta relevante para quem aloca capital é outra: essa expansão está gerando retorno estrutural ajustado ao risco – ou apenas pulverizando exposição sob uma narrativa de inovação?
Os dados públicos de uma carteira consolidada dentro da INCO ajudam a responder.
Uma estrutura com 55 empresas ativas, alocação média de 1% a 2% por projeto e prazo médio de 32 meses reportou histórico de 210% do CDI no ciclo recente.
Para comparação, os FIIs de crédito – principal canal institucional de financiamento ao setor nos últimos anos – entregaram, em grande parte, entre 100% e 130% do CDI no mesmo período.
A diferença não está apenas na magnitude. Está na engenharia.
CDI preserva capital. FIIs capturam spread com volatilidade de tela e dependência de mercado secundário.
Crowdfunding pulverizado distribui exposição entre dezenas de tomadores com captura direta do spread operacional – sem oscilação diária.
São arquiteturas diferentes respondendo à mesma pergunta: como estruturar capital para não depender de um único evento.
Na edição dessa semana do Investor Track falamos sobre:
Os dados de uma carteira pulverizada real e o que o histórico de 210% do CDI revela sobre arquitetura de risco
A comparação estrutural entre CDI, FIIs de crédito e crowdfunding – além do dividend yield
O efeito da capitalização composta ao longo de dez anos nas três estruturas
Por que avaliar TIR por projeto é o erro mental mais comum de quem começa no segmento
O que uma plataforma precisa entregar para que a pulverização seja engenharia – e não dispersão
NO NOSSO RADAR
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