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ABERTURA
Estamos de volta do feriado de carnaval.
A crença popular diz que o ano no Brasil começa a partir daqui. A verdade é que para a grande maioria, todo ano começa acelerado, e no Radar Terracotta não foi diferente.
Chegamos à edição #168, e só nesse início de ano já entregamos 15 artigos e mais de 200 minutos de leitura sobre inúmeros temas.
Seguimos nesse pós-carnaval no mesmo ritmo acelerado com que começamos o ano, focados em entregar a melhor curadoria do setor e conteúdo provocativo para nossos mais de 10 mil assinantes.
Boa leitura!
A plataforma de “troca de casas” que captou US$ 125M
Há cerca de 20 anos, eu conheci o Couchsurfing. A proposta era quase ingênua: abrir sua casa para um estranho e, em troca, ganhar acesso ao mundo.
Depois veio o Airbnb e transformou hospitalidade em infraestrutura global. A casa virou inventário. O anfitrião virou operador. A confiança virou sistema de reviews.
Nos últimos anos, se multiplicaram os clubes de membros. Comunidades fechadas, curadas, com acesso a experiências, networking e, muitas vezes, hospedagem. Menos marketplace aberto. Mais pertencimento.
Agora, a Kindred anunciou uma rodada de US$ 125 milhões para escalar sua plataforma global de troca de casas exclusiva para membros.
Não é apenas mais uma startup de travel. O timing sugere algo maior:
Talvez estejamos assistindo ao nascimento de uma terceira categoria de hospitalidade.
O modelo: reciprocidade com infraestrutura
A Kindred opera sob um princípio simples: reciprocidade estruturada.
O membro hospeda alguém e ganha créditos.
Esses créditos podem ser usados para se hospedar em outra casa, em qualquer cidade da rede. Não há pagamento de diária ao anfitrião e os créditos não podem ser comprados ou vendidos. A moeda não é dinheiro, é participação.
A monetização acontece na infraestrutura. O usuário paga uma taxa de serviço por noite e a taxa de limpeza, que é repassada.
Para usuários frequentes, existe o Kindred Passport, uma assinatura anual que elimina as taxas de serviço durante o período.

O ponto central é que a empresa não ganha sobre aluguel. Ela ganha por organizar confiança.
Para isso, construiu camadas que historicamente faltaram ao home swapping tradicional:
Verificação de identidade
Verificação do imóvel
Coordenação de limpeza profissional
Concierge 24/7
E cobertura para danos acidentais
O fato é que o home exchange sempre existiu. O que nunca existiu foi uma infraestrutura de confiança com padrão próximo ao de um short-term rental.
Tração relevante em uma categoria historicamente nichada
No anúncio da rodada, a empresa divulgou aproximadamente 300 mil membros, presença em mais de 150 cidades e cerca de 350 mil noites hospedadas acumuladas. Só em 2025, foram cerca de 150 mil novos membros.
Para uma categoria que sempre viveu nas margens do turismo, isso é significativo.
Marketplace de troca de casas depende de liquidez. Se você não encontra oferta no destino desejado, o produto quebra. O crescimento sugere que a rede começa a atingir massa crítica em mercados estratégicos.
Outro ponto importante: a empresa afirma que a maior parte do inventário é composta por residências primárias.
Isso não é apenas um detalhe operacional. É um posicionamento estratégico e, potencialmente, de proteção frente a ambientes regulatórios cada vez mais restritivos para aluguel de curta temporada.
Fundadores com DNA de real estate tech
A Kindred foi fundada em 2021 por Justine Palefsky e Tasneem Amina, ambas com passagem pela Opendoor.
Ou seja, não são empreendedoras experimentando hospitalidade pela primeira vez – vêm de uma empresa que enfrentou escala, liquidez de mercado e complexidade operacional no setor imobiliário.
Em 2023, trouxeram um CTO com histórico em empresas como LinkedIn e Tinder, após um aquihire focado em tecnologia de matching.
Isso revela ambição: o motor de pareamento entre casas e viajantes é o coração do modelo.
No cap table estão nomes como a16z, NEA e Index Ventures. É capital que costuma apostar em categorias com potencial de reconfiguração estrutural.
O pano de fundo: clubes e pressão de custo
Há dois movimentos paralelos que ajudam a explicar o momento.
O primeiro é a ascensão dos clubes exclusivos.
O comportamento do consumidor mudou.
Comunidade passou a ser diferencial competitivo.
Curadoria virou ativo.
Filtragem social reduziu fricção.
Pessoas aceitam pagar por pertencimento.
A Kindred não se apresenta como marketplace aberto. O acesso é via aplicação e aprovação.
O discurso evolui para subcomunidades baseadas em confiança e conexões indiretas.
Isso aproxima o modelo mais de um clube de hospitalidade do que de uma plataforma puramente transacional.
O segundo movimento é a pressão de custo no turismo.
Em muitas viagens, a hospedagem representa o maior componente da despesa.
Se você elimina a diária e paga apenas infraestrutura, o impacto econômico é relevante.
Não é uma solução para quem viaja duas noites por ano. Mas para quem trabalha remoto, faz viagens longas ou tem flexibilidade de agenda, a equação muda.

O efeito de rede é qualitativo, não apenas quantitativo
O aspecto mais interessante do modelo não é apenas o crescimento do número de membros. É o desenho do incentivo.
No Airbnb, o incentivo é monetário. Na Kindred, é reputacional e de acesso.
Quanto melhor o histórico do membro, melhores casas ele consegue acessar.
Quanto melhor a experiência, maior a disposição de continuar hospedando.
Quanto maior a qualidade média da comunidade, maior o valor percebido da rede.
Isso cria um efeito de rede qualitativo. A moeda invisível é confiança acumulada.
Se o sistema funcionar, o inventário tende a melhorar ao longo do tempo, porque o acesso a casas melhores depende de comportamento responsável.
O histórico de fricções em vacation homes
Modelos ligados a segunda residência, fractional ownership e timeshare moderno já tentaram reinventar hospitalidade diversas vezes.
Muitos fracassaram não por falta de demanda, mas por fricções:
Conflito de agenda
Governança complexa
Desalinhamento de incentivos
E desgaste operacional
O home swapping tradicional também nunca se tornou mainstream justamente por fricções semelhantes: insegurança, logística, assimetria de qualidade e dificuldade de coordenação.
O que a Kindred faz é pegar um comportamento antigo e aplicar infraestrutura moderna. Não é invenção cultural, mas sim engenharia operacional.
Se conseguir manter equilíbrio entre confiança, custo e liquidez, ela não compete frontalmente com Airbnb.
Ela cria uma terceira via: nem hotel, nem aluguel de curta temporada, mas troca estruturada com camada full-service.
Estranheza como indicador
Quando o Airbnb surgiu, a ideia de dormir na casa de um estranho parecia absurda para muitos. Hoje é trivial.
Trocar casas ainda gera desconforto inicial. Abrir sua residência principal para alguém desconhecido continua sendo um salto psicológico maior do que alugar um imóvel secundário.
Mas talvez essa estranheza seja precisamente o sinal de que existe algo estruturalmente novo.
Modelos que desafiam normas culturais estabelecidas raramente parecem óbvios no início.
O terreno cultural hoje é diferente daquele de 15 anos atrás. Pessoas confiam em reputação digital, participam de comunidades fechadas, trabalham remotamente e têm mais flexibilidade geográfica. A infraestrutura social está mais preparada para esse tipo de proposta.

O que realmente importa daqui para frente
A tese depende de três variáveis críticas:
Manutenção da confiança,
Equilíbrio de oferta e demanda por cidade
E capacidade de sustentar margens com a camada operacional que promete.
Incidentes relevantes podem afetar conversão e retenção.
Crescimento desbalanceado pode gerar frustração.
Custos operacionais elevados podem pressionar o modelo econômico.
Mas se a empresa conseguir transformar troca de casas em experiência previsível, segura e economicamente atraente, ela pode consolidar uma categoria que sempre existiu, mas nunca teve infraestrutura suficiente para escalar.
A trajetória do Couchsurfing ao Airbnb e agora aos clubes de hospitalidade sugere que a hospitalidade está migrando de transação para comunidade.
A Kindred está apostando que pertencimento + confiança estruturada é mais defensável do que pura intermediação.
E se isso ainda parece estranho, talvez seja porque estamos no começo da curva.
DESTAQUES
Os 5 artigos mais lidos do pré-carnaval de 2026
Pedi para nosso time selecionar os cinco artigos que mais se destacaram desde o início do ano. Espero que goste:
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