
Por décadas, o mercado imobiliário residencial foi a última grande indústria de serviços a operar em modo artesanal.
O broker era o nó de uma rede frouxa de mais de três milhões de profissionais nos Estados Unidos, sustentada por marcas franqueadas que vendiam treinamento, identidade e leads.
A RE/MAX, fundada em Denver em 1973, foi um dos arquétipos desse modelo: mais de 145 mil agentes em 8.500 escritórios em mais de 120 países, com uma máquina de royalties de margem alta.
Esse modelo está sendo desmontado – e o anúncio desta semana é mais um capítulo em como o mercado está se reconfigurando.
A transação
O acordo prevê que cada acionista da RE/MAX pode optar por receber US$ 13,80 em dinheiro por ação ou 5,152 ações da nova holding, sujeito a um mecanismo de rateio.
Se mais acionistas pedirem caixa, o caixa se rateia; o piso é US$ 60 milhões e o teto é US$ 80 milhões. O resto – algo entre US$ 800 e US$ 820 milhões em valor – é pago em papel da nova companhia.
O componente em dinheiro representa entre 6,8% e 9,1% do enterprise value da transação. Mais de 90% do pagamento aos acionistas da RE/MAX é em ações da entidade combinada.
Na prática é uma forma de fazer uma operação de fusão.
Uma franquia icônica em estagnação cíclica e estrutural
A RE/MAX foi fundada em Denver em 1973 e cresceu como o arquétipo da franquia imobiliária moderna: agentes pagam taxas e royalties, e a sede entrega marca, treinamento, ferramentas e leads.
O modelo é capital-leve, alta margem e altamente escalável geograficamente.
Hoje, a rede tem 148.660 agentes em 8.500 escritórios em mais de 120 países, e seus corretores são, há 18 anos consecutivos, os mais produtivos da indústria americana – fechando em média mais que o dobro de transações por agente que a média do mercado.
O case de uma franquia bem operada continua intacto na margem: 32% de EBITDA é uma margem que poucos negócios conseguem sustentar. O problema é a linha de cima.

A história é clara: a RE/MAX teve seu pico operacional em 2021 – o último ano de mercado imobiliário americano superaquecido – e desde então perdeu cerca de 30% da receita até 2023, com recuperação parcial em 2024 e nova queda em 2025.
A produtividade por agente caiu de 16,3 sides em 2021 para 11,7 em 2025, refletindo o ciclo (menos transações no mercado) e a perda de agentes nos mercados core. O agente RE/MAX continua mais produtivo que o concorrente médio, mas em base menor.
A leitura estratégica: este é um ativo de marca com economia ainda saudável, mas sem motor de crescimento próprio.
A franquia internacional segue se expandindo (Brasil, Portugal, México, Oriente Médio), mas a operação estratégica nos EUA e Canadá – origem de boa parte do caixa – está em contração.
A RE/MAX precisava de uma plataforma tecnológica que ela não tinha condições de construir do zero, e de um motor de aquisição de agentes que reverteria a sangria nos mercados maduros.
Quem está por trás da compra
A Real foi fundada em 2014 por Tamir Poleg, Yuval Niv e Gal Weiss com uma tese simples e disruptiva:
A corretagem residencial estava sendo capturada por franquias e brokers que tomavam parcela alta da comissão dos agentes em troca de marca, treinamento e ferramentas – mas a tecnologia podia entregar quase tudo isso por uma fração do custo.
O modelo original era um cap de US$ 12 mil por ano por agente, com divisão 85/15 até atingir o teto, e incentivos em ações da empresa para os top performers. Em 2020, captou apenas US$ 12 milhões em Série A.
A trajetória posterior foi uma das mais aceleradas que o setor já viu:

De 2020 a 2023, a Real cresceu sua receita em 4.062%. Em 2024, fechou o ano com US$ 1,26 bilhão (+84%) e 24.140 agentes. Em 2025, atingiu US$ 2 bilhões (+56%) com mais de 31.700 agentes – adicionou mais agentes em um único ano que muitos concorrentes têm em estoque total.
O modelo de negócio
Quatro decisões estratégicas explicam o crescimento e definem por que a tese de combinação com a RE/MAX faz sentido:
1. Economia agressiva para o agente
Divisão 85/15 com cap baixo (frente a 70/30 ou 60/40 nas grandes franquias) e RSUs em ações da Real funcionam como íma para corretores produtivos. Cada agente que migra leva listings, clientes e relações.
2. Plataforma proprietária com IA – o reZEN
Sistema único de gestão transacional que substitui dezenas de ferramentas que o broker tradicional precisa contratar separadamente. Inclui assistente de IA para suporte a corretor, automação de fluxo de fechamento, CRM e gestão de pipeline. Para o agente, é menos custo e mais tempo na ponta comercial.
3. Modelo cloud, sem escritórios físicos
A Real opera sem o overhead de imóveis de franqueado – todas as transações acontecem digitalmente. Margem operacional muito superior à da concorrência.
4. Vertical de fintech embedada
O ponto que pouca gente comentou na cobertura inicial – e que pode ser o mais importante para a tese de longo prazo da combinação.
Por que o lado fintech é o coração da próxima onda de receita
O Real Wallet, lançado em parceria com uma instituição bancária, é uma carteira digital embedada que oferece conta empresarial PJ, cartão de débito de marca e programa de recompensas que pode ser convertido em desconto em fees para o agente.
Ao final de 2025, a Real reportou mais de 7.000 agentes ativos com US$ 23 milhões em depósitos, e a expansão do Real Wallet Capital – linhas de crédito para agentes – alcançou 20 a 21 estados americanos. Em paralelo, a One Real Title gerou US$ 5 milhões em receita em 2025, em modelo de joint ventures estaduais.
Os números absolutos parecem pequenos em uma empresa de US$ 2 bilhões de receita, mas a métrica que importa é a attach rate – a proporção de transações imobiliárias da Real em que serviços auxiliares (hipoteca, título, seguro) também são vendidos.
A Real reportou attach rate geral de 3% a 4% no fim de 2025, com picos de 30% a 40% nas joint ventures onde a integração comercial é mais profunda. A diferença entre 4% e 30% é onde se cria a próxima onda de receita: serviços financeiros têm margem muito superior à corretagem pura, e o switching cost para o cliente é alto.
Aqui está o ponto: a Real não é apenas uma corretora com tecnologia. É uma plataforma vertical de imobiliário com fintech embedada – modelo mais próximo da Rocket Companies do que da Compass.
Ao adicionar a base de 145 mil agentes RE/MAX e suas dezenas de milhões de transações geradas globalmente, a Real cria, em um único movimento, o maior canal de distribuição de produtos financeiros imobiliários fora dos bancos. É essa a tese. Royalties de franquia são o caixa imediato; attach de Real Wallet é o múltiplo do futuro.
O que será a nova companhia
Somando os dois lados em uma base 2025, a entidade combinada teria gerado aproximadamente US$ 2,3 bilhões em receita e US$ 157 milhões em EBITDA ajustado antes de sinergias.
As sinergias estimadas – US$ 30 milhões anuais até 2027 – virão majoritariamente de serviços compartilhados, custo corporativo e eficiências de tecnologia.
Sobre o EBITDA standalone da RE/MAX (US$ 93,7M), o múltiplo pago foi cerca de 9,4x; após sinergias plenas, cai para ~7x. O guidance de fechamento contábil é segundo semestre de 2026, sujeito a aprovação regulatória e de acionistas.
A combinação cria o terceiro maior brokerage residencial do mundo por número de agentes, atrás apenas de Compass+Anywhere e Keller Williams. É a primeira vez que um player com plataforma tecnológica nativa entra nesse pódio.

O guidance de US$ 30 milhões anuais em sinergias de custo até 2027 é, à primeira vista, modesto: representa cerca de 3,3% da receita combinada e menos de 20% do EBITDA atual.
Para padrões de M&A em tecnologia, é um número conservador. A leitura é que a tese central não é redução de custos, e sim alavancagem de receita.
Quatro vetores explicam o cálculo:
1. Cross-sell de tecnologia.
Os 145 mil agentes RE/MAX tornam-se mercado endereçável imediato para o reZEN, Real Wallet e produtos financeiros. Mesmo uma adoção de 30% gera receita recorrente de software relevante.
2. Mudança de mix de receita.
Hoje, mais de 90% da receita de Real vem de comissões de transações; RE/MAX equilibra com franquia (margem mais alta e recorrente). A combinação reduz a volatilidade do múltiplo de mercado.
3. Geografia.
RE/MAX é forte em Europa Ocidental, Brasil, México e Oriente Médio – exatamente onde Real ainda não chegou. A internacionalização orgânica levaria uma década; via aquisição, é instantânea.
4. Dados.
A combinação produz uma das maiores bases de transações imobiliárias proprietárias do mundo. Em uma economia onde modelos de IA dependem de dados de treinamento únicos, isso pode valer mais do que qualquer linha do guidance.
Três forças que tornaram este negócio quase inevitável
Primeira força: o vento contrário regulatório – entendendo o NAR settlement
Em março de 2024, a National Association of Realtors (NAR) – entidade que regula de facto a corretagem residencial nos Estados Unidos – concordou em pagar US$ 418 milhões para encerrar uma série de processos coletivos liderados pelo caso Sitzer-Burnett.
Os autores acusaram a NAR e grandes corretoras de conspirar para manter comissões artificialmente altas. Um júri federal no Missouri concordou.
Por décadas, o modelo americano funcionava assim: o vendedor pagava a comissão integral (tipicamente 5-6% do valor do imóvel), e o corretor do vendedor automaticamente repartia metade com o corretor do comprador.
Esse arranjo era publicado no Multiple Listing Service (MLS) – a base de dados onde os corretores anunciam imóveis – e criava um incentivo claro: corretores de comprador “direcionavam” clientes para imóveis que ofereciam comissões mais generosas.
O comprador, em tese, não pagava nada; na prática, o custo estava embutido no preço.
A partir de 17 de agosto de 2024, três regras passaram a valer:
1. Não é mais permitido publicar a comissão do corretor do comprador no MLS. Se o vendedor quiser ofertar algo, precisa fazê-lo fora do sistema.
2. O corretor do comprador deve negociar sua comissão diretamente com o cliente, em contrato escrito, antes mesmo de mostrar o primeiro imóvel.
3. Aumento da transparência sobre serviços e taxas – o cliente precisa saber, em escrito, exatamente o que está pagando e por quê.
O efeito sobre a economia do broker tradicional foi imediato: com a comissão do comprador agora explícita e negociável, a média se comprimiu.
Estudos preliminares já apontam queda de aproximadamente 0,3 a 0,5 ponto percentual nas comissões totais, o que em uma indústria que processa US$ 1,5 trilhão em vendas residenciais por ano significa bilhões de dólares saindo do bolso dos corretores.
Para uma franquia como a RE/MAX, cuja receita depende de royalties sobre essas comissões, é compressão direta de margem.
A consequência: empresas com economia asset-light e tecnologia escalável (Real, eXp) ganham vantagem; franquias tradicionais com custo fixo de marca e treinamento ficam expostas. Foi essa diferença que tornou a fusão necessária.
Segunda força: o ciclo americano
2025 foi o quarto ano consecutivo de volume de transações abaixo da média histórica.
O mercado residencial americano operou em torno de 4 milhões de unidades vendidas por ano – comparado a 6 milhões em 2021.
Receita pressionada e churn de agentes acelerando levaram conselhos de empresas listadas a olhar consolidação como única via de criação de valor de curto prazo.
O contexto se torna mais nítido quando se olha para os movimentos paralelos: a Compass comprou a Anywhere (Coldwell Banker, Century 21, Sotheby’s) por US$ 1,6 bilhão; a Rocket Companies anunciou em março de 2025 a compra da Redfin.
A Real precisava se mexer ou seria deixada na poeira.
Terceira força: a tese de plataforma com IA e fintech
A Real construiu, em silêncio, uma das poucas plataformas verticais do setor que rodam de fato em produção: roteamento inteligente de leads, automação de fechamento, agentes de IA para suporte ao corretor, e produtos financeiros embedados via Real Wallet.
O que faltava era marca global e capilaridade de franquia. A RE/MAX entrega exatamente isso.
O que isso sinaliza sobre o que podemos ver por aqui
É inevitável que as proptechs que nos últimos anos cresceram por aqui, passaram pelo inverno das startups e conseguiram se estabelecer, serão interessados diretos em fazer um movimento semelhante no Brasil.
O modelo de intermediação imobiliária segue sendo ineficiente, e altamente fragmentado. Um dos grandes mercados do mundo, é inevitável que verá um movimento de consolidação continuar se propagando.
Não seria estranho alguma das big techs entender que o caminho mais curto para o IPO talvez passe por comprar quem já passou por ele.
NO RADAR
Leia as últimas edições:
FEEDBACK
Se gostou do conteúdo, encaminhe para um conhecido seu
