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Stablecoins podem ser o novo meio de pagamento imobiliário?

A ascensão silenciosa de uma nova infraestrutura financeira

Bruno Loreto
Bruno Loreto

Mar 24, 2026

Esta é a Investor Track, nossa nova análise semanal focada em estratégias e teses de investimento para o mercado imobiliário da próxima década. Para se inscrever e receber toda semana, basta clicar aqui.

INVESTOR TRACK

Nos últimos anos, um movimento relevante tem acontecido fora do radar do mercado imobiliário.

Stablecoins deixaram de ser um nicho do universo cripto para se tornarem uma das infraestruturas de pagamento que mais crescem no mundo.

  • O mercado já ultrapassa US$ 300 bilhões em valor total

  • O volume anual de transações supera dezenas de trilhões de dólares

  • Grandes players como Visa e Mastercard já operam e investem nesse trilho

  • Reguladores ao redor do mundo começaram a estruturar regras específicas

  • Mais de 40M de endereços já possuem stablecoins

Mas o dado mais importante não está apenas na escala.

Está no comportamento.

❝

No Brasil, por exemplo, stablecoins passaram a ser utilizadas como alternativa para envio de dinheiro ao exterior, especialmente em resposta ao aumento de custos via IOF. O uso não surge por afinidade com tecnologia, mas por arbitragem econômica: menor custo e maior velocidade.

Esse padrão revela algo central:

Stablecoins não estão sendo adotadas por ideologia.
Estão sendo adotadas por eficiência.

Para alguns, a pergunta deixa de ser “isso é cripto?”
E passa a ser “isso é uma nova infraestrutura global de movimentação de dinheiro?”

O que são stablecoins (sem complicar)

Stablecoins são, essencialmente, moedas “fiduciárias” digitais.

Elas mantêm paridade com moedas estáveis (principalmente o dólar) e circulam em redes digitais, com três características principais:

  • estabilidade de valor

  • liquidação quase instantânea

  • operação contínua (24/7)

Na prática, permitem transferir valor globalmente com menos fricção do que o sistema bancário tradicional.

Mas há um ponto importante:

Nem toda stablecoin é igual.

❝

Cerca de 85% do mercado está concentrado em modelos lastreados em ativos tradicionais, como USDC e USDT — justamente os mais relevantes para uso como meio de pagamento.

Para o mercado imobiliário, isso importa.

O que está em jogo não é inovação estrutural do ativo.
É previsibilidade e eficiência no fluxo financeiro.

Por que isso está acontecendo agora

O crescimento das stablecoins é puxado por três forças principais.

1. Eficiência

O sistema atual de pagamentos internacionais é lento, caro e intermediado.

Stablecoins reduzem drasticamente:

  • tempo (dias para minutos)

  • custo (percentual relevante para marginal)

2. Demanda global por dólar

Especialmente em mercados emergentes, existe demanda estrutural por exposição ao dólar.

Stablecoins oferecem acesso direto a essa demanda, sem depender integralmente do sistema bancário.

3. Incentivo econômico real

O caso brasileiro é um exemplo claro.

Com o aumento do IOF sobre operações internacionais, o custo de enviar dinheiro para fora subiu. Em resposta, usuários passaram a utilizar stablecoins como alternativa mais eficiente.

Quando há ganho econômico claro, adoção acontece.

Um ponto adicional: stablecoin já é dinheiro de trabalho

Esse movimento não está restrito a pagamentos pontuais.

Hoje, uma parcela relevante de profissionais globais já recebe parte da renda em stablecoins. Em média, cerca de 35% da renda desses usuários é recebida nesse formato, e mais de 70% afirmam que isso aumentou sua capacidade de operar internacionalmente.

Isso mostra que stablecoins já não são apenas um meio de transferência.

Estão se tornando uma infraestrutura de renda global.

Mas com uma ressalva importante

Apesar do crescimento, ainda existe um gap relevante.

A maior parte do volume de stablecoins ainda está ligada ao ecossistema cripto.

Pagamentos no mundo real estão crescendo, mas ainda não são dominantes.

Ou seja:

❝

Estamos olhando para uma infraestrutura emergente — não consolidada.

A diferença crítica para cripto tradicional

Para quem ainda não tem claro, vale reforçar. Stablecoins são diferentes de criptomoedas.

Cripto (ex: Bitcoin)

Stablecoin

Volátil

Estável

Especulativo

Funcional

Ativo

Infraestrutura

Stablecoins não são sobre valorização.

São sobre eficiência.

Onde isso conecta com o mercado imobiliário

O mercado imobiliário tem uma característica estrutural:

Depende de grandes volumes de capital, mas esse capital circula com fricção.

Especialmente em operações que envolvem:

  • investidores internacionais

  • compra de imóveis fora do país

  • estruturas de funding mais complexas

E é exatamente aqui que stablecoins começam a fazer sentido.

Hoje: como funciona comprar um imóvel internacional

Exemplo: um estrangeiro comprando um imóvel no Brasil.

Fluxo tradicional:

  1. Dinheiro está no exterior

  2. Transferência via banco ou fintech

  3. Conversão cambial, spread e compliance

  4. Tempo de liquidação: dias

  5. Custo que representa um % do valor

Depois disso:

  • contrato

  • escritura

  • registro em cartório

O dinheiro é uma das partes mais lentas que reduz eficiência do processo.

Como seria com stablecoin

Mesmo cenário, com stablecoin:

  1. Comprador possui stablecoin

  2. Envia diretamente ao vendedor ou para um escrow

  3. Liquidação em minutos

  4. Custo significativamente menor

O restante do processo não muda:

  • contrato

  • registro

  • cartório

O ativo continua local.
O dinheiro se torna global.

Comparação direta

Elemento

Tradicional

Stablecoin

Tempo

Dias

Minutos

Custo

Alto

Baixo

Intermediários

Muitos

Poucos

Alcance

Local

Global

A demanda já existe — o produto ainda não

Esse ponto fica ainda mais claro quando analisamos a intenção de uso.

Existe um interesse crescente em utilizar stablecoins para compras de maior ticket.

  • Para grandes compras (como imóveis), países como Nigéria (49%), África do Sul (39%), Índia (33%) e Brasil (29%) já mostram intenção significativa

  • Para viagens e estadias (proxy para short stay), o interesse também é consistente: Nigéria (31%), Índia (29%), Brasil (29%) e México (25%)

O padrão é claro:

A demanda para usar stablecoin em consumo relevante já existe.

Mas essa demanda ainda não encontra infraestrutura adequada.

O mercado não precisa criar interesse.

Precisa criar produto.

O ponto que ainda não fecha sozinho

Existe uma limitação estrutural.

O mundo jurídico continua sendo offline.

Isso significa que:

  • o sistema digital não sabe sozinho se o imóvel foi transferido

  • alguém precisa validar esse evento

Esse papel é feito por um intermediário — o validador.

Na prática:

  • advogado

  • empresa

  • plataforma

A automação existe, mas ainda não é completa.

Case 1: Propy

A Propy é um exemplo de como esse modelo pode evoluir.

A empresa combina:

  • escrow digital

  • uso de blockchain

  • validação de etapas da transação

Fluxo:

  1. comprador deposita o valor

  2. a plataforma valida o processo

  3. o pagamento é liberado

Ela atua simultaneamente como:

  • escrow

  • validador

  • infraestrutura

O que isso muda de verdade

Stablecoins não mudam:

  • o cartório

  • a propriedade

  • o ativo

Mas mudam a fricção do capital.

Isso implica:

  • capital mais global

  • entrada mais simples

  • liquidação mais eficiente

E um ponto adicional pouco explorado:

❝

Mais de 50% dos usuários já afirmam ter comprado algo especificamente porque o vendedor aceitava stablecoin.

Aceitar esse trilho não é apenas eficiência.

Pode ser também acesso a nova demanda.

Mensagem final

Stablecoins não são, hoje, o novo padrão de pagamento imobiliário.

Mas estão se tornando algo potencialmente relevante:

Um novo trilho de liquidação para o mercado imobiliário global.

O ativo continua local.
O sistema jurídico continua local.

Mas o dinheiro começa a deixar de ser.

E quando o dinheiro muda:

  • muda quem investe

  • muda de onde vem o capital

  • muda a velocidade do mercado

O movimento ainda está no início.
A adoção ainda não é massiva.

Mas os sinais já existem — não como narrativa, mas como comportamento.

E em um mercado intensivo em capital como o imobiliário, isso tende a ser menos uma hipótese e mais uma direção estrutural.

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  • Crowdfunding, CDI e FIIs: quem leva a melhor?

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