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INVESTOR TRACK
Nos últimos anos, um movimento relevante tem acontecido fora do radar do mercado imobiliário.
Stablecoins deixaram de ser um nicho do universo cripto para se tornarem uma das infraestruturas de pagamento que mais crescem no mundo.
O mercado já ultrapassa US$ 300 bilhões em valor total
O volume anual de transações supera dezenas de trilhões de dólares
Grandes players como Visa e Mastercard já operam e investem nesse trilho
Reguladores ao redor do mundo começaram a estruturar regras específicas
Mais de 40M de endereços já possuem stablecoins

Mas o dado mais importante não está apenas na escala.
Está no comportamento.
No Brasil, por exemplo, stablecoins passaram a ser utilizadas como alternativa para envio de dinheiro ao exterior, especialmente em resposta ao aumento de custos via IOF. O uso não surge por afinidade com tecnologia, mas por arbitragem econômica: menor custo e maior velocidade.
Esse padrão revela algo central:
Stablecoins não estão sendo adotadas por ideologia.
Estão sendo adotadas por eficiência.
Para alguns, a pergunta deixa de ser “isso é cripto?”
E passa a ser “isso é uma nova infraestrutura global de movimentação de dinheiro?”
O que são stablecoins (sem complicar)
Stablecoins são, essencialmente, moedas “fiduciárias” digitais.
Elas mantêm paridade com moedas estáveis (principalmente o dólar) e circulam em redes digitais, com três características principais:
estabilidade de valor
liquidação quase instantânea
operação contínua (24/7)
Na prática, permitem transferir valor globalmente com menos fricção do que o sistema bancário tradicional.
Mas há um ponto importante:
Nem toda stablecoin é igual.
Cerca de 85% do mercado está concentrado em modelos lastreados em ativos tradicionais, como USDC e USDT — justamente os mais relevantes para uso como meio de pagamento.
Para o mercado imobiliário, isso importa.
O que está em jogo não é inovação estrutural do ativo.
É previsibilidade e eficiência no fluxo financeiro.
Por que isso está acontecendo agora
O crescimento das stablecoins é puxado por três forças principais.
1. Eficiência
O sistema atual de pagamentos internacionais é lento, caro e intermediado.
Stablecoins reduzem drasticamente:
tempo (dias para minutos)
custo (percentual relevante para marginal)
2. Demanda global por dólar
Especialmente em mercados emergentes, existe demanda estrutural por exposição ao dólar.
Stablecoins oferecem acesso direto a essa demanda, sem depender integralmente do sistema bancário.
3. Incentivo econômico real
O caso brasileiro é um exemplo claro.
Com o aumento do IOF sobre operações internacionais, o custo de enviar dinheiro para fora subiu. Em resposta, usuários passaram a utilizar stablecoins como alternativa mais eficiente.
Quando há ganho econômico claro, adoção acontece.

Um ponto adicional: stablecoin já é dinheiro de trabalho
Esse movimento não está restrito a pagamentos pontuais.
Hoje, uma parcela relevante de profissionais globais já recebe parte da renda em stablecoins. Em média, cerca de 35% da renda desses usuários é recebida nesse formato, e mais de 70% afirmam que isso aumentou sua capacidade de operar internacionalmente.
Isso mostra que stablecoins já não são apenas um meio de transferência.
Estão se tornando uma infraestrutura de renda global.
Mas com uma ressalva importante
Apesar do crescimento, ainda existe um gap relevante.
A maior parte do volume de stablecoins ainda está ligada ao ecossistema cripto.
Pagamentos no mundo real estão crescendo, mas ainda não são dominantes.
Ou seja:
Estamos olhando para uma infraestrutura emergente — não consolidada.
A diferença crítica para cripto tradicional
Para quem ainda não tem claro, vale reforçar. Stablecoins são diferentes de criptomoedas.
Cripto (ex: Bitcoin) | Stablecoin |
|---|---|
Volátil | Estável |
Especulativo | Funcional |
Ativo | Infraestrutura |
Stablecoins não são sobre valorização.
São sobre eficiência.
Onde isso conecta com o mercado imobiliário
O mercado imobiliário tem uma característica estrutural:
Depende de grandes volumes de capital, mas esse capital circula com fricção.
Especialmente em operações que envolvem:
investidores internacionais
compra de imóveis fora do país
estruturas de funding mais complexas
E é exatamente aqui que stablecoins começam a fazer sentido.
Hoje: como funciona comprar um imóvel internacional
Exemplo: um estrangeiro comprando um imóvel no Brasil.
Fluxo tradicional:
Dinheiro está no exterior
Transferência via banco ou fintech
Conversão cambial, spread e compliance
Tempo de liquidação: dias
Custo que representa um % do valor
Depois disso:
contrato
escritura
registro em cartório
O dinheiro é uma das partes mais lentas que reduz eficiência do processo.
Como seria com stablecoin
Mesmo cenário, com stablecoin:
Comprador possui stablecoin
Envia diretamente ao vendedor ou para um escrow
Liquidação em minutos
Custo significativamente menor
O restante do processo não muda:
contrato
registro
cartório
O ativo continua local.
O dinheiro se torna global.
Comparação direta
Elemento | Tradicional | Stablecoin |
|---|---|---|
Tempo | Dias | Minutos |
Custo | Alto | Baixo |
Intermediários | Muitos | Poucos |
Alcance | Local | Global |
A demanda já existe — o produto ainda não
Esse ponto fica ainda mais claro quando analisamos a intenção de uso.
Existe um interesse crescente em utilizar stablecoins para compras de maior ticket.
Para grandes compras (como imóveis), países como Nigéria (49%), África do Sul (39%), Índia (33%) e Brasil (29%) já mostram intenção significativa
Para viagens e estadias (proxy para short stay), o interesse também é consistente: Nigéria (31%), Índia (29%), Brasil (29%) e México (25%)
O padrão é claro:
A demanda para usar stablecoin em consumo relevante já existe.
Mas essa demanda ainda não encontra infraestrutura adequada.
O mercado não precisa criar interesse.
Precisa criar produto.

O ponto que ainda não fecha sozinho
Existe uma limitação estrutural.
O mundo jurídico continua sendo offline.
Isso significa que:
o sistema digital não sabe sozinho se o imóvel foi transferido
alguém precisa validar esse evento
Esse papel é feito por um intermediário — o validador.
Na prática:
advogado
empresa
plataforma
A automação existe, mas ainda não é completa.
Case 1: Propy

A Propy é um exemplo de como esse modelo pode evoluir.
A empresa combina:
escrow digital
uso de blockchain
validação de etapas da transação
Fluxo:
comprador deposita o valor
a plataforma valida o processo
o pagamento é liberado
Ela atua simultaneamente como:
escrow
validador
infraestrutura
O que isso muda de verdade
Stablecoins não mudam:
o cartório
a propriedade
o ativo
Mas mudam a fricção do capital.
Isso implica:
capital mais global
entrada mais simples
liquidação mais eficiente
E um ponto adicional pouco explorado:
Mais de 50% dos usuários já afirmam ter comprado algo especificamente porque o vendedor aceitava stablecoin.
Aceitar esse trilho não é apenas eficiência.
Pode ser também acesso a nova demanda.
Mensagem final
Stablecoins não são, hoje, o novo padrão de pagamento imobiliário.
Mas estão se tornando algo potencialmente relevante:
Um novo trilho de liquidação para o mercado imobiliário global.
O ativo continua local.
O sistema jurídico continua local.
Mas o dinheiro começa a deixar de ser.
E quando o dinheiro muda:
muda quem investe
muda de onde vem o capital
muda a velocidade do mercado
O movimento ainda está no início.
A adoção ainda não é massiva.
Mas os sinais já existem — não como narrativa, mas como comportamento.
E em um mercado intensivo em capital como o imobiliário, isso tende a ser menos uma hipótese e mais uma direção estrutural.

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