
ABERTURA
Em janeiro de 2025, Satya Nadella declarou que "as aplicações SaaS, como as conhecemos, vão colapsar". Em fevereiro de 2026, a Morgan Stanley batizou o fenômeno de SaaSpocalypse.
A cada dia o Claude e outras soluções de IA simplificam a vida de usuários que querem construir seus próprios sistemas dentro de casa.
Seria essa uma volta ao passado ou o novo padrão do futuro?
Das software houses às soluções especialistas
Muitas das empresas no mercado imobiliário entraram no mundo da digitalização por meio das soluções de software desenvolvidas sob demanda. Até os anos 2000 esse era o padrão, e as “software houses” forneciam o serviço e expertise para isso.
Quando entrei no mercado em 2008, vi de perto a transição de inúmeras empresas que entenderam as implicações de desenvolver um sistema próprio.
A expectativa de se criar um sistema altamente aderente se transforma em um passivo que demanda contínua manutenção, atualizações e está sempre atrás da velocidade que as soluções de mercado conseguem atingir.
Essa mudança de padrão e mentalidade foi facilitada pela ascensão da computação na nuvem, o software como serviço (SaaS), o mobile e mais tarde a proliferação de startups criando soluções cada vez mais específicas para dores e segmentos mais específicos.
A empresa deixou de ter um fornecedor de desenvolvimento de software para ter múltiplos fornecedores de software como serviço.
A plataformização e o movimento pendular
Anos mais tarde, a multiplicação no número de ferramentas ampliou a complexidade e as exigências de maior integração entre as ferramentas. Alguns núcleos começaram então a se consolidar e adotar um posicionamento como ambiente integrador.
Foi assim que surgiram os super apps no mobile, e os sistemas de gestão se tornaram plataformas.
A verdade é que o mundo de software corporativo nunca foi um mercado linear.
Ele oscila, em ondas relativamente previsíveis, entre customizar internamente (controle, diferenciação, custo de desenvolvimento) e contratar pacotes externos (escala, especialização, custo de oportunidade).
Cada virada vem na carona de uma nova arquitetura técnica que muda o custo marginal de uma das pontas.
E o que estamos vendo é a IA trazer novamente o pêndulo em direção à construção de soluções dentro de casa.
Quatro ciclos que representam o movimento
Ciclo 1 (1981–1995)
O PC e a primeira onda de customização
Antes do IBM PC (1981), software corporativo significava mainframe e códigos contratados em COBOL. Quando o computador pessoal chegou às mesas, milhares de empresas – incluindo gigantes como GE, Ford e Citibank – montaram times internos para escrever planilhas, sistemas contábeis e ERPs caseiros. O gasto médio com software de PC quase triplicou entre 1989 e 1991, enquanto o gasto com software de mainframe ficou estagnado. A promessa era óbvia: controle local, diferenciação competitiva e fim da dependência de IBM e Cullinet.
Ciclo 2 (1999–2015)
SaaS e a era da hiperespecialização
Em 1999, a Salesforce inaugurou um modelo radical: software entregue por navegador, cobrado por assinatura. A combinação banda larga + virtualização + cartão de crédito corporativo tornou economicamente irracional manter equipes para construir CRM, RH, contabilidade ou suporte. O mercado SaaS saltou de US$ 4,2 bilhões em 2005 para US$ 317 bilhões em 2024 – um CAGR de 18,7%. Empresas trocaram código próprio por uma "stack" de assinaturas: hoje, a empresa média opera com 106 aplicativos SaaS simultâneos.
Ciclo 3 (2008–2020)
O ouro do mobile vira commodity
A App Store nasceu em 2008 com 500 aplicativos. A "corrida do ouro" durou cinco anos: bancos, varejistas, incorporadoras, todos quiseram seu app próprio. A onda terminou como toda corrida do ouro termina – em commoditização. As lojas hoje têm milhões de aplicativos, e ter um app deixou de ser diferencial para se tornar requisito mínimo. O mobile virou camada padrão dos SaaS, não estratégia em si. A lição: nem toda febre de "construir em casa" cria valor durável.
Ciclo 4 (2023–?)
A IA e o regresso ao desenvolvimento interno
Com modelos como Claude Sonnet 4.6 e ferramentas como Claude Code, o custo marginal de escrever software desabou. O que antes exigia um time de oito engenheiros e doze semanas, hoje pode ser um produto interno feito por dois analistas em uma tarde. Quando o custo de "construir" cai 90%, a equação build-vs-buy se inverte. Não estamos diante de "fim do SaaS" – mas, pela primeira vez desde 1999, o pêndulo voltou a se mover na direção do in-house.
Por que agora é diferente?
Ondas de "construir em casa" sempre prometeram independência e morreram com a conta de manutenção. Mas o ciclo atual é estruturalmente distinto e se sustenta em três deslocamentos de custo:
Primeiro, colapsa o custo de produção. Programar deixou de ser gargalo: virou orquestração.
Em segundo lugar, colapsa o custo de manutenção. Sistemas legados, antes intocáveis por dependerem de programadores caros, agora podem ser refatorados em horas.
Em terceiro, colapsa o custo de integração. Agentes conseguem conversar entre APIs e planilhas sem precisar de um middleware sofisticado.
O efeito combinado é que a fronteira do "vale a pena construir" se moveu vários quilômetros. O que antes só fazia sentido para um Itaú ou uma Vale – manter time interno para fazer software customizado – agora começa a fazer sentido para uma incorporadora regional ou uma loteadora com 20 colaboradores.
A leitura estratégica
O que acredito que vai acontecer na prática é que não estamos diante do "fim do SaaS". Estamos diante de uma reordenação da cadeia de valor.
SaaS comoditizado vira alvo de substituição interna.
SaaS profundo (o ERP da obra, o sistema fiscal, o banco de dados) vira plataforma sobre a qual se constrói.
E a camada que antes vivia "no SaaS" – a lógica de negócio, as regras de precificação, os fluxos de aprovação – migra para agentes proprietários.
"As aplicações SaaS são, no fundo, bancos de dados CRUD com lógica de negócio embutida. Toda a lógica de negócio vai migrar para a camada de agentes de IA, que vão orquestrar múltiplas bases simultaneamente. A noção de que aplicações de negócio existem como hoje pode colapsar na era dos agentes."
A resposta dos fornecedores de software
Obviamente os fornecedores de software não estão parados e a resposta ao longo dos próximos 24 meses vai definir quais sobrevivem ao ciclo.
Três frentes se desenham de forma clara.
1. Reposicionar-se como plataforma de agentes, não como aplicação.
A Salesforce reorganizou todo o portfólio em torno de Agentforce 360 e Data 360, vendendo a tese de que o valor não está mais no CRM, mas na capacidade de orquestrar agentes sobre dados unificados.
A Microsoft fez o mesmo com Copilot Studio, Agent 365 e Azure AI Foundry. SAP (Joule), ServiceNow e Adobe seguiram o mesmo manual. A leitura é: se a lógica de negócio vai migrar para a camada de agentes, é melhor ser dono dessa camada do que ser comoditizado por ela.
2. Mudar o modelo de cobrança.
A cobrança por seat (licença por usuário) é a primeira vítima da IA – afinal, a IA reduz o número de pessoas necessárias. Os fornecedores estão migrando para cobrança por consumo, por agente, por ação executada ou por resultado entregue.
A Salesforce adotou cobrança por conversa em Agentforce. Outros se reposicionam como "outcomes-based pricing", em que o cliente só paga se o agente entrega o resultado contratado.
É uma transição arriscada – pode reduzir receita no curto prazo –, mas é o que sustenta a tese de valor na nova arquitetura. O mesmo processo que aconteceu anos atrás quando as empresas deixaram de vender licença para passar a cobrar a licença como serviço.
3. Aprofundar verticalização e dados proprietários.
O que protege um SaaS contra a substituição por agente caseiro é ter dados, integrações regulatórias e domínio de nicho que o cliente não consegue replicar.
É por isso que SaaS verticais (saúde, jurídico, construção, real estate) tendem a sobreviver melhor que SaaS horizontais comoditizados.
No Brasil, esse é o desafio que recai sobre Sienge, Mega, Totvs Construção e Construtor de Vendas: aprofundar o que apenas eles têm e abrir APIs para que o cliente construa por cima, em vez de competir contra ele.
Quem tratar o cliente como inimigo do roadmap perde. Quem tratar como co-construtor, capturando dados e ecossistema, prospera.
Tudo tem prós e contras
Como tudo na vida e nas empresas, não estamos falando sobre certo ou errado. Mas principalmente sobre entender os prós e contras desse movimento.
Listei abaixo alguns fatores que pesam contra e a favor para quem embarca na onda de desenvolver soluções dentro de casa.

Como guiar a decisão
Mais importante do que pensar "build vs buy" como decisão binária, a formulação mais adequada agora é pensar em "Own vs Orchestrate" – possuir o que diferencia, orquestrar o que comoditiza.
Aplicada com disciplina, ela evita os dois extremos: o messianismo do "vamos construir tudo com IA" e o conservadorismo do "compramos SaaS para tudo".
Para cada sistema ou função, faça duas perguntas: (1) é fonte de diferenciação competitiva? e (2) é maduro e comoditizado pelo mercado?

Acompanhe o pêndulo e não a manchete
A história do software corporativo é a história de um pêndulo que oscila entre controle e conveniência, e em cada virada nasce uma nova classe de vencedores.
O ciclo do PC enriqueceu Microsoft e Oracle. O ciclo do SaaS criou Salesforce. O ciclo do mobile, em retrospecto, beneficiou menos as empresas que fizeram apps próprios e mais as plataformas que os hospedaram. O ciclo da IA está em curso – e ainda não sabemos quem captura mais valor.
O que sabemos é que quem trata a virada como pêndulo, e não como manchete, sai melhor de cada ciclo.
E é essa leitura que todo empreendedor e tomador de decisão nas empresas precisam realizar.
FUNDING
O básico bem feito precede o capital – com Caio Lobo (@oincorporador)
No início dessa semana, gravei com o Caio Lobo o primeiro episódio da nossa série gratuita: os 5 estágios do capital imobiliário.
A conversa me fez consolidar um pensamento que já tinha há um tempo: não existe atalho nesse mercado.
Fazer o básico bem feito já te coloca à frente de muitos empreendedores na corrida pelo capital – principalmente no estágio Entrante, foco do episódio.
Além disso, o Caio trouxe outras boas observações:
A Ilusão do dinheiro fácil no setor
Os perigos de dar um passo maior do que a perna
Como tentativa e erro sai caro no imobiliário
Foram 58 minutos de conversa gravada que você pode conferir agora.
Serão cinco episódios ao todo, um para cada estágio.
Espero que goste.
INVESTOR TRACK
Cinco empresas estão segurando a economia americana
No Q1 de 2026, três quartos do crescimento do PIB americano vieram de capex em IA. Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft e Oracle somam US$ 710 bilhões em investimento previsto para o ano – alta de 36% sobre 2025. Tirar as cinco da equação é descobrir uma economia que tangencia zero.

Esse capex vira concreto, switchgear e eletricidade – sobretudo eletricidade.
O efeito no setor de construção americano é uma bifurcação visível: backlog de 11,2 meses para quem entrou nos mandatos de hyperscaler; 5,8 meses para quem ficou fora.
A reorganização é estrutural.
Cinco clientes finais ditam o pipeline do setor.
O Brasil entrou no mesmo desenho. Os mesmos cinco hyperscalers escrevem os cheques aqui – Microsoft anunciou US$ 2,7 bilhões; Scala estruturou US$ 50 bilhões para a "AI City".
Para o investidor imobiliário, a janela para escolher o lado certo da fratura ainda está aberta. Por enquanto.
NO NOSSO RADAR
Leia também:
SP atinge menor vacância de escritórios da última década
Como guerra do Irã está impactando o imobiliário americano
Template de como estrutura dívida para negócios de data center
Como três grandes construtoras globais usam IA para ampliar segurança
Starwood é mais uma a congelar resgates
O potencial construtivo que o Vasco tem para vender
FIQUE DE OLHO
Leia as últimas edições:
FEEDBACK
Se gostou do conteúdo, encaminhe para um conhecido seu
