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Affordable Housing: a moradia vai migrar da compra para a locação

O descolamento entre renda e preço direciona uma nova configuração no ambiente imobiliário

Bruno Loreto
Bruno Loreto

Jan 21, 2026

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O tema affordable housing entrou de vez no radar do mercado imobiliário global. 

Motivos não faltam para isso.

O aumento consistente dos preços dos imóveis, sem acompanhamento proporcional do nível de renda, vem reduzindo o acesso à moradia em praticamente todos os mercados relevantes no Brasil e no mundo. 

Esse descolamento deixou de ser pontual ou cíclico e passou a ter características estruturais.

Quando morar passa a consumir mais de 30% da renda de uma família, o problema deixa de ser apenas imobiliário. 

Ele passa a afetar mobilidade de trabalho, produtividade econômica, dinâmica urbana e crescimento de longo prazo.

Não por acaso, affordable housing deixou de ser um tema restrito à política pública e passou a ocupar espaço central nas discussões de capital, desenvolvimento e estratégia no real estate.

Um fenômeno global

Nos principais centros urbanos do mundo, gastar mais de 30% da renda com moradia deixou de ser exceção. Em muitos casos, passou a ser regra.

Esse fenômeno aparece:

  • em cidades altamente desenvolvidas

  • em mercados com abundância de capital

  • em países com sistemas financeiros maduros

O problema não é falta de investimento.
O problema é que o preço da moradia passou a crescer mais rápido do que a renda que deveria sustentá-la.

❝

Quando essa equação se rompe, o mercado precisa se reorganizar. É nesse contexto que o affordable housing ganha relevância, não como bandeira social, mas como resposta econômica.

No Brasil, o problema existe, mas costuma ser mal interpretado

Por aqui, o debate sobre moradia acessível ainda é fortemente associado à baixa renda e à casa própria. Essa leitura, embora compreensível, é incompleta.

O desafio atual não se limita à população de menor renda. 

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Ele atinge também uma classe média funcional, com emprego, renda e vida urbana ativa, mas que encontra dificuldade, ou simplesmente falta de racional econômico, para comprar um imóvel nos moldes tradicionais.

A renda existe.
O emprego existe.

Mas o preço do ativo, o custo do capital e o modelo de financiamento não fecham a conta.

E é aqui que surge um ponto central do debate global.

O gráfico abaixo traz um retrato disso. Quando cruzamos a renda média das famílias brasileiras e o preço médio de um imóvel de 45 m2, vemos como ao longo dos últimos quinze anos o índice de affordability piorou 67%. 

Diferente do que muitos pensam, a solução passa mais pela locação do que pela compra

A reação intuitiva costuma ser: facilitar a compra do imóvel.
Mas os mercados onde o debate amadureceu mostram outra direção.

Quando o custo da terra, da construção e do capital sobe de forma estrutural, viabilizar a compra se torna cada vez mais caro, pouco escalável e altamente dependente de subsídio.

A locação, por outro lado:

  • reduz barreiras de entrada

  • se adapta melhor à renda e ao ciclo de vida

  • permite escala

  • e viabiliza a entrada de capital de longo prazo

Por isso, affordable housing vem sendo tratado globalmente muito mais como tese de build to rent do que como política de estímulo à propriedade.

O foco deixa de ser “como viabilizar a compra” e passa a ser “como garantir acesso estável e financeiramente sustentável à moradia”.

O caminho natural: políticas que incentivam a construção de moradia acessível

Diante desse cenário, o movimento inicial dos governos foi relativamente óbvio: criar incentivos para estimular a produção de moradia acessível.

Crédito fiscal, incentivos urbanísticos, subsídios indiretos, doação ou desconto de terra pública. Esses instrumentos são importantes e cumprem um papel relevante.

Mas a experiência mostrou um limite claro.

O incentivo, sozinho, não resolve o problema.

O HIS mostrou que incentivo sem engrenagem não basta

Em São Paulo, a política de Habitação de Interesse Social conseguiu gerar volume de produção. Mas também deixou claros seus limites.

Quando o foco está apenas em:

  • viabilizar a obra

  • reduzir custo de construção

  • cumprir exigência regulatória

Sem pensar no ciclo completo do ativo, o resultado tende a ser:

  • baixa qualidade urbana

  • dificuldade operacional

  • degradação ao longo do tempo

  • pouca atratividade para capital estruturado

Affordable housing não se sustenta como projeto isolado.
Ele só funciona quando tratado como sistema.

A engrenagem completa: onde o debate realmente amadureceu

Nos mercados onde o tema avançou, a lógica é mais clara e mais sofisticada.

O desenho não é apenas “construir moradia acessível”, mas estruturar uma cadeia completa de valor:

  1. O Estado gera o incentivo
    (crédito fiscal, subsídio, regulação favorável)

  2. Alguém usa esse incentivo para levantar recursos
    (fundos, capital institucional, dívida estruturada)

  3. Alguém constrói
    (com foco em eficiência, escala e previsibilidade)

  4. Alguém opera
    (gestão profissional, controle de OPEX, relação com o morador)

  5. Alguém mantém a posse dos ativos
    (capturando valor na renda recorrente, não no giro)

❝

É esse desenho que transforma affordable housing em tese imobiliária de longo prazo.

O caso April Housing: quando o capital institucional tratou affordable housing como infraestrutura

Foi exatamente essa leitura que levou a Blackstone a entrar no setor.

Em 2023, a Blackstone lançou a April Housing, uma plataforma dedicada exclusivamente à aquisição, operação e preservação de comunidades de moradia acessível para locação nos Estados Unidos com mais de 70 mil unidades em gestão

A April Housing não é construtora e não é programa social. Ela nasce como operadora institucional de ativos residenciais acessíveis, com foco explícito em longo prazo.

O contexto da aposta

A decisão veio em um momento específico:

  • juros mais altos comprimindo novos desenvolvimentos

  • maior risco em ativos residenciais tradicionais

  • pressão política e regulatória sobre o mercado de aluguel

  • e demanda estrutural crescente por moradia acessível

Nesse cenário, affordable housing passou a oferecer algo raro: fluxo previsível, demanda inelástica e alinhamento com políticas públicas.

O que a April Housing faz, na prática

A estratégia é clara e disciplinada:

  • adquirir empreendimentos residenciais já existentes

  • majoritariamente ligados a programas como o LIHTC (programa federal dos EUA que concede créditos fiscais a investidores para viabilizar a construção e operação de moradias de aluguel a preços acessíveis)

  • cujos períodos de restrição de preço estavam próximos de expirar

Em vez de converter esses ativos para mercado livre e capturar ganho de curto prazo, a April Housing:

  • reinveste capital nos imóveis

  • mantém a acessibilidade por 30 anos

  • captura valor via renda recorrente estável

Até 2024, a plataforma já havia comprometido mais de…

A tese de investimento que transformou moradia popular em infraestrutura institucional continua na área exclusiva para assinantes Radar Pro.

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  • A "Matemática da Moradia": o cálculo que compara a operação pulverizada (investidor individual) com a gestão profissional, demonstrando como a eficiência operacional pode elevar o Cap Rate de 3,27% para 4,55%;

  • O Case Blackstone: como a gestora criou a April Housing para tratar affordable housing como um ativo de renda recorrente e baixo risco, fugindo da volatilidade de mercado;

  • A Engrenagem Completa: por que o incentivo fiscal (como o HIS em SP) falha quando isolado e como estruturar a cadeia completa de valor (capital, construção e operação).

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