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INVESTOR TRACK
Por que investidores imobiliários deveriam olhar para o espaço
O mercado imobiliário sempre foi um derivado da infraestrutura.
Portos, ferrovias, rodovias, energia elétrica, cabos submarinos, data centers e hubs logísticos nunca foram apenas ativos operacionais. Eles atuaram como motores de reorganização territorial, capazes de deslocar centros de poder, capital e população.
O que começa a se desenhar agora é uma nova camada dessa lógica: a infraestrutura espacial.
Nos últimos cinco anos, o espaço deixou de ser majoritariamente:
científico,
militar,
simbólico,
e passou a ser econômico, energético, logístico e industrial.
Esse movimento tem nome: Astropolitics.
Astropolitics é o campo que analisa como poder, economia, infraestrutura e governança se organizam fora da Terra – e, sobretudo, como isso retroage sobre a economia terrestre.
Para investidores, o ponto central não é a Lua em si, mas os efeitos de segunda e terceira ordem sobre cidades, energia, dados, logística e território.
Um paralelo histórico inevitável: as grandes navegações
Na virada do século XV para o XVI, o mundo viveu um choque estrutural semelhante.
A abertura das rotas marítimas não transformou apenas o comércio. Ela:
redefiniu fluxos de capital,
criou novos centros financeiros,
elevou cidades periféricas à condição de hubs globais,
reorganizou profundamente o valor do solo urbano.
Lisboa, Amsterdã e Londres não cresceram apenas porque havia mais comércio. Elas cresceram porque passaram a concentrar:
infraestrutura logística,
centros de decisão,
capital financeiro,
mão de obra especializada.
O investidor que entendeu esse movimento cedo não precisou “adivinhar empresas vencedoras”. Bastava estar exposto ao território certo.
A corrida espacial contemporânea apresenta sinais estruturalmente parecidos – com uma diferença fundamental: a escala de capital, tecnologia, dados e energia envolvida é significativamente maior.
O tamanho do fenômeno: números que importam
Alguns dados ajudam a tirar o tema do campo especulativo:
A economia espacial global alcançou US$ 613 bilhões, com crescimento anual de 7,8%, segundo dados consolidados da Space Foundation, PwC e Deloitte.
Projeções conservadoras indicam que o setor deve ultrapassar US$ 1 trilhão antes de 2040, com estimativas mais agressivas chegando a US$ 2–3 trilhões no mesmo horizonte.
78% da economia espacial já é comercial, não governamental – uma mudança estrutural em relação às décadas anteriores.
Apenas em 2024, contratos ligados ao programa Artemis (NASA) e iniciativas comerciais lunares superaram US$ 90 bilhões em compromissos públicos e privados combinados.
O espaço deixou de ser um custo estratégico dos governos.
Passou a operar como uma plataforma econômica, com infraestrutura, serviços recorrentes e efeitos territoriais claros.
O colapso dos custos de acesso ao espaço muda tudo
Nenhuma infraestrutura escala sem uma queda brutal de custos.

Entre 2008 e 2025:
Space Shuttle: US$ 54.000/kg
Falcon 9: US$ 2.720/kg
Falcon Heavy: US$ 1.500/kg
Starship (alvo): US$ 100–200/kg
Essa redução superior a 95% no custo de lançamento é o verdadeiro catalisador da industrialização espacial.
Na prática, ela vai viabilizar:
megaconstelações de satélites,
logística lunar recorrente,
manufatura orbital,
construção extraterrestre,
energia solar espacial.
Sem esse colapso de custos, nada do que está sendo discutido seria economicamente relevante.
SpaceX não é uma empresa espacial, é uma operadora de infraestrutura
A SpaceX representa uma mudança de categoria.
Hoje, ela opera a maior constelação de satélites da história, um sistema logístico orbital contínuo, um modelo de caixa recorrente via Starlink.
A fusão com a xAI, concluída em janeiro desse ano, criou uma entidade avaliada em US$ 1,25 trilhão, se tornando a maior empresa privada do mundo, integrando:
conectividade,
computação,
inteligência artificial,
logística espacial.
Para investidores imobiliários, a analogia correta não é “uma NASA privada”, mas:
a SpaceX é o equivalente espacial aos cabos submarinos, ferrovias e redes elétricas do século XX.
Energia solar espacial: o driver que redefine território
No campo energético, a energia solar baseada no espaço desponta como um dos vetores mais transformadores. A possibilidade de captação contínua, independente de clima e ciclos diurnos, com transmissão direta para estações terrestres, abre espaço para uma reconfiguração profunda da geografia energética.
Se escalável, esse modelo pode reduzir volatilidade, viabilizar novos clusters industriais e redefinir mapas de valor imobiliário – um padrão historicamente recorrente sempre que energia barata e estável se torna disponível.
Historicamente, energia barata e estável sempre precedeu ciclos estruturais de valorização imobiliária.
Manufatura orbital e dados: o espaço como parque industrial
A mesma lógica se aplica a dados e manufatura. Empresas como a Redwire já demonstraram que a microgravidade permite:
fabricar materiais impossíveis na Terra,
produzir cristais farmacêuticos mais puros,
criar fibras ópticas com menor perda,
avançar em biotecnologia.
Isso exige:
estações espaciais privadas,
logística orbital,
energia confiável,
centros de dados avançados.
A Lonestar Data Holdings, ao desenvolver data centers lunares, também sinaliza algo relevante: dados também buscam território seguro, resiliente e energeticamente eficiente – mesmo fora da Terra.
Construção lunar: o nascimento da engenharia fora da Terra
Entre os movimentos mais relevantes da economia espacial está a transição do “levar coisas ao espaço” para construir no espaço.
Nesse contexto, a ICON se consolidou como o principal player na fronteira da construção extraterrestre, por meio do Projeto Olympus, desenvolvido em parceria com a NASA.
Em vez de transportar estruturas ou materiais da Terra – algo economicamente inviável em escala – o Projeto Olympus parte de um princípio central: uso de recursos locais (In-Situ Resource Utilization – ISRU).
Na prática, isso significa transformar o regolito lunar no próprio material construtivo.

Desde 2023, o projeto evoluiu de conceito para validação técnica progressiva. Em 2024 e 2025, a ICON avançou em três frentes críticas:
1. Validação física do material e do processo
A ICON testa técnicas de sinterização e fusão do regolito por laser, capazes de gerar estruturas cerâmicas com resistência superior ao concreto tradicional, sem uso de água ou cimento.
Os testes indicam que o regolito pode funcionar simultaneamente como:
elemento estrutural,
isolamento térmico,
blindagem contra radiação,
proteção contra micrometeoritos.
2. Testes em ambientes de gravidade reduzida
Em 2025, a ICON realizou experimentos suborbitais – incluindo o experimento Duneflow, em parceria com a Blue Origin – para estudar o comportamento do material em condições de gravidade lunar simulada.
Impressão 3D na Lua não é apenas “imprimir no vácuo”, mas controlar fluxo, deposição e estabilidade estrutural em 1/6 da gravidade terrestre.
3. Consolidação do contrato e horizonte operacional
O contrato com a NASA, estimado em cerca de US$ 60 milhões (SBIR Phase III), foi reafirmado como parte da preparação para as missões Artemis III e posteriores, previstas para a segunda metade da década.
O escopo inclui:
habitats pressurizados,
plataformas de pouso,
estradas e infraestrutura logística básica,
escudos térmicos e de impacto.
Importante: a ICON ainda não imprimiu uma estrutura na superfície lunar real. O estágio atual é de validação técnica e operacional, alinhado ao cronograma de presença sustentada na Lua a partir de 2027–2028.
Por que isso importa para investidores em real estate

O ponto não é sobre “imóveis na Lua”.
A evolução da economia espacial promove um conjunto de competências que afetam diretamente e indiretamente o mercado imobiliário terrestre. Separar essas camadas ajuda o investidor a entender onde o impacto é operacional e onde ele é territorial e estratégico.
Impactos diretos no real estate (como se constrói):
Produtividade da construção: automação extrema de obra, redução de prazos e menor dependência de mão de obra intensiva.
Estrutura de custos: menor dependência logística e maior uso de materiais locais, pressionando custos tradicionais e margens.
Novas tipologias viáveis: construção orientada por energia, e não por insumos clássicos, viabilizando projetos hoje economicamente inviáveis.
Esses impactos afetam diretamente como imóveis são concebidos, produzidos e entregues. Historicamente, ganhos relevantes de produtividade na construção sempre precederam mudanças profundas em tipologias imobiliárias, estrutura de custos e modelos de desenvolvimento.
A construção lunar funciona como o laboratório mais extremo – e, justamente por isso, o mais revelador – do que pode se tornar a próxima fronteira da construção na Terra.
Impactos indiretos no real estate (onde investir):
Reorganização territorial: cidades que concentram centros de comando espacial, fabricação avançada, logística orbital e P&D tendem a capturar capital, talentos e demanda imobiliária qualificada.
Reprecificação energética: energia espacial pode alterar a viabilidade econômica de projetos intensivos em energia e criar novos polos de desenvolvimento.
Infraestrutura de dados: conectividade orbital reduz dependência de cabos físicos e reconfigura o valor relativo dos territórios.
Vantagem competitiva dos players: industrialização da construção favorece operadores mais capitalizados e integrados, pressionando modelos artesanais.
Em síntese:
os impactos diretos transformam como se constrói;
os impactos indiretos transformam onde vale a pena investir.
Astropolitics como framework de investimento
Astropolitics não é uma tese isolada.
É um framework para pensar assimetrias de longo prazo.
Perguntas-chave para investidores imobiliários:
Quais cidades estão se posicionando como hubs espaciais?
Onde estão os centros de decisão, e não apenas de execução?
Como energia e dados vão reprecificar territórios?
Quais tipologias imobiliárias se beneficiam primeiro?
Seguramente não estamos falando de um movimento estrutural de curto prazo. Talvez alguns dos impactos e oportunidades só sejam capturáveis na próxima geração.
Mas assim como no passado, quem esperar clareza total provavelmente chegará tarde.

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