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INVESTOR TRACK
Poucos setores concentram tanto valor e tão pouca tecnologia quanto a construção latino-americana.
Estamos falando de um mercado de US$ 709 bilhões, sustentado por demanda estrutural, déficit habitacional, nearshoring, urbanização acelerada, que ainda opera, em boa parte, com lápis, papel, planilhas de Excel e mensagens de WhatsApp.
Na última semana foi lançado o “The Next Construction Tech Frontier”, um relatório da Zacua Ventures em parceria com a Leonard, plataforma de inovação do grupo VINCI, e colaboração da Terracotta.

A leitura para quem investe na intersecção entre tecnologia e o ambiente construído é: o setor chegou a um ponto de inflexão, e os próximos cinco anos vão decidir se a região gera suas primeiras histórias de sucesso em escala.
Um mercado grande, fragmentado e informal
A América Latina tem 667 milhões de habitantes, é o terceiro maior bloco econômico do mundo por PIB e já vive 81% urbanizada – número que deve chegar a 89% até 2050.
A idade média é de 31 anos, contra 38 nos Estados Unidos e 44 na Europa Ocidental. Uma população mais jovem significa mais atividade econômica de longo prazo, mais demanda por moradia e infraestrutura e, importante para quem vende software, maior abertura para adotar tecnologia no dia a dia.
A segunda coisa é a fragmentação. Só Brasil, México e Argentina somam cerca de 258 mil empresas de construção. Nenhum ator isolado tem participação suficiente para padronizar o setor ou ditar o ritmo da adoção tecnológica – o mercado é dominado por pequenas e médias empresas.
Sobre essa base se acumula a informalidade: entre 25% e 60% da força de trabalho da construção opera sem contrato, proteção trabalhista ou seguridade social, contratada dia a dia. Isso torna capacitação e adoção de novas ferramentas estruturalmente mais difíceis.
A terceira é o contexto macro. Ciclos políticos são mais curtos que os prazos de obra; cada transição muda juros, câmbio e compromissos de gasto público, redefinindo a economia dos projetos. Cadeias de suprimento são pouco transparentes, dependem de relações pessoais e funcionam majoritariamente offline.
Como resume o relatório, fundadores e investidores que entendem essas condições não tentam contorná-las – constroem seus produtos a partir delas.
A indústria menos digitalizada do mundo
A construção é, globalmente, uma das indústrias menos digitalizadas – e na América Latina o atraso é ainda maior. A maioria das empresas opera sem qualquer expectativa de que a tecnologia deva fazer parte do planejamento, da gestão ou da entrega dos projetos.
A comunicação em obra depende de WhatsApp e ligações, em aparelhos Android de baixo custo que funcionam como o verdadeiro "sistema operacional" do canteiro. Há poucos anos, 70% dos pequenos distribuidores da região não tinham sequer e-mail.
Esse é justamente o ponto: onde há pouca digitalização, há muito espaço para tecnologia que funcione nas condições locais.
E a inteligência artificial mudou a equação. Copilotos integrados ao WhatsApp, visão computacional para monitorar obras e analítica preditiva estão destravando casos de uso antes impossíveis – não porque a tecnologia seja nova, mas porque finalmente se encaixa na forma como a LatAm realmente trabalha.
A facilidade de uso passou a ser a ponte da adoção. O relatório organiza a oportunidade em seis grandes frentes. Vale percorrê-las, porque cada uma está em um estágio diferente de maturidade.

Duas frentes merecem destaque por concentrarem, hoje, a energia empreendedora mais interessante.
A cadeia de suprimentos vem sendo digitalizada por marketplaces bilaterais como é o caso da Construex, investida da Terracotta, que construiu o maior conjunto de dados de construção da região com mais de 240 milhões de SKUs e US$ 67 milhões em GMV, e agora coloca agentes de IA nos dois lados da transação.
Já a operação em obra evoluiu de simples captura de imagens para geração ativa de informação: plataformas como a Spybee transformam drones, câmeras 360° e prints de WhatsApp num gêmeo digital alinhado ao cronograma, com IA que detecta atrasos antes que afetem a rota crítica. Foi o primeiro investimento da Leonard na América Latina.
Financiamento é o teto invisível de todo o setor
Se há um tema que atravessa todas as categorias, é o crédito.
Apesar do tamanho do mercado, as instituições financeiras se mantêm cautelosas diante da ciclicidade, dos prazos longos e dos períodos extensos de retorno da construção. Médias empresas e pequenos operadores ficam amplamente desatendidos.
O resultado é um arranjo curioso: os fornecedores viram os credores de fato, financiando via prazos de 30, 60 e 90 dias e assumindo empréstimos não garantidos no próprio balanço.
Isso mantém as obras girando, mas concentra risco no elo de suprimentos e trava o pequeno operador, que cobre faturas antigas com receita de projetos novos.
Some-se a isso o fato de que 122 milhões de pessoas na região não têm acesso à banca tradicional.
É aqui que as fintechs encontram a construção – e a tese fica óbvia para o investidor latino-americano.
A mesma infraestrutura, o mesmo conhecimento de investidor e os mesmos padrões que sustentaram a onda fintech B2C agora se movem para modelos B2B e de infraestrutura.
Financiamento embarcado na compra de materiais, novos veículos de capital para incorporadoras e inclusão financeira do comprador final formam um dos vetores mais promissores do mapa.
VC emergente, generalista e em recuperação
O ecossistema de venture capital da região amadureceu rápido, corrigiu forte e agora se estabiliza.
Entre 2016 e 2021, o investimento total se multiplicou por 30, com pico de US$ 16 bilhões em 2021, embalado pela liquidez pós-Covid e por mais de 20 novos unicórnios só naquele ano. Veio a correção de 2022–2023, com investidores globais reduzindo exposição, e uma recuperação a partir de 2024.
No primeiro semestre de 2025 foram cerca de US$ 1,8 bilhão em 140 acordos, com seed e pré-seed representando 82% do fluxo – sinal claro de um mercado ainda concentrado nas etapas iniciais.
Dentro desse bolo, o fintech reina absoluto, com 61% do capital. E é exatamente por isso que o ConTech se beneficia: ao posicionar as finanças da construção como um problema fintech, o fundador fala uma língua que o investidor da região já conhece.
A construção, como setor, ainda é uma fatia pequena – mas a familiaridade com a intersecção joga a favor.
Um dado simbólico: no primeiro semestre de 2025, o México captou cerca de US$ 800 milhões e superou o Brasil pela primeira vez em um semestre – reflexo direto do nearshoring. Ainda assim, poucas empresas de ConTech na região passaram significativamente da Série B, e nenhuma entregou um "exit de referência".
Para o relatório, isso não é um limite permanente, e sim o retrato de um ecossistema jovem: o primeiro grande exit mudará a conversa. Enquanto isso, fusões e aquisições, lideradas por compradores estratégicos regionais, viraram a principal via de liquidez.

A tripla hélice que não gira junta
Há um motivo estrutural para tantos problemas persistirem apesar do crescimento do empreendedorismo e do capital.
Em economias de inovação maduras, três atores trabalham de forma coordenada para levar a tecnologia do laboratório à obra: o Estado, que define políticas e financia pesquisa básica; a academia, que gera conhecimento e talento; e a indústria, que identifica problemas, adota inovação e cria demanda comercial. É a chamada tripla hélice.
Na construção latino-americana, as três hélices existem, mas giram em paralelo. A contratação pública não recompensa risco tecnológico; a pesquisa acadêmica não chega ao canteiro; e a maioria das construtoras não tem um departamento de inovação nem processo interno para avaliar novas tecnologias.
Para o fundador, a consequência prática é dura: não existe um comprador interno natural. As vendas precisam criar o aliado dentro do cliente, em vez de encontrá-lo.
É por isso que, neste mercado, execução comercial pesa mais que o produto – e a reputação, num setor movido a relações e boca a boca, é a verdadeira distribuição.
Cinco anos que vão definir a categoria
Para onde isso caminha nos próximos três a cinco anos? O relatório aponta convergências claras. A formalização do financiamento à construção deve seguir o roteiro do fintech, levando capital escalável a segmentos que os bancos evitam.
A construção industrializada e fora de obra tende a ganhar tração à medida que a escassez de mão de obra e os custos crescentes viram sua economia com o benefício adicional de menos resíduos e materiais de baixo carbono.
E as plataformas verticais de ponta a ponta, que unificam dados hoje dispersos entre vendas, compras e finanças numa única fonte confiável, despontam como algumas das apostas mais interessantes da região.
O fio que costura tudo é a IA aplicada ao jeito latino-americano de construir: captura por voz e chat dentro do WhatsApp, visão computacional que vira informação acionável, agentes que deixam de apenas registrar dados para executar tarefas – fazer um pedido, comparar orçamentos, conciliar fluxo de caixa.
Há ainda uma vantagem de leapfrog: a região pode adotar tecnologias já validadas em mercados desenvolvidos, adaptá-las às condições locais e acelerar todo o ecossistema sem repetir cada etapa do caminho.
Os próximos cinco anos determinarão se a tecnologia para construção na América Latina gera suas primeiras empresas de sucesso excepcional em escala ou se veremos o clássico voo de galinha.

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