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Nos últimos meses, alguns números relacionados ao mercado de canetas emagrecedoras começaram a me chamar atenção.
O que impressiona é a escala que esse segmento ganhou em pouco tempo.
Nos Estados Unidos, o uso de medicamentos GLP-1 para perda de peso praticamente quadruplicou em dois anos. Em 2024, 3% dos adultos americanos diziam utilizá-los para emagrecer. Em 2026, já eram 11%.
A PwC encontrou um dado ainda mais forte: em maio deste ano, 21% dos domicílios americanos tinham pelo menos uma pessoa usando um GLP-1, contra 9% em janeiro de 2025.
O Morgan Stanley estima que o mercado global desses medicamentos possa chegar a US$ 190 bilhões em 2035, mais que o dobro do tamanho registrado em 2025.
No Brasil, a tendência também deve ganhar força. O fim da patente da semaglutida, em março de 2026, abriu espaço para novas versões e preços menores, ampliando o número de pessoas que potencialmente terão acesso ao tratamento.
Até aqui, seria uma história enorme para a indústria farmacêutica.
Só que os efeitos não estão parando nela.
O “mounjaro” começa a mudar o que as pessoas comem, compram, vestem e fazem com o próprio corpo.
E foi aí que surgiu a pergunta: Qual será o efeito do “mounjaro” no mercado imobiliário?
A primeira resposta está no prato
É na alimentação que os dados parecem mais claros.
Pesquisadores de Cornell cruzaram informações sobre usuários de GLP-1 com transações de dezenas de milhares de famílias americanas.
Seis meses depois do início do tratamento, os gastos dessas famílias em supermercados haviam caído, em média, 5,3%.
Entre famílias de renda mais alta, a queda passava de 8%.
Em fast-foods, cafeterias e outros restaurantes de serviço rápido, a redução ficou próxima de 8%.
E não é só uma questão de quantidade. Muda também o que vai para o carrinho.
Snacks salgados tiveram quedas próximas de 10%, assim como doces, biscoitos e outros produtos mais calóricos. Iogurte, frutas frescas, barras nutricionais e snacks de carne estiveram entre as poucas categorias que cresceram.
A PwC encontrou comportamento parecido.
Entre os usuários de GLP-1 pesquisados, 61% disseram comprar menos doces e 56%, menos snacks salgados. Ao mesmo tempo, 44% passaram a comprar mais frutas e vegetais frescos, enquanto aproximadamente um terço aumentou o consumo de proteínas.
Nos restaurantes, a mudança aparece com ainda mais clareza.
Depois de seis a oito meses de tratamento, o gasto das famílias usuárias em quick-service restaurants caiu 8,7%. Pizza caiu 22,2%; frango, 11,6%; cafés e bakeries, 8%; hambúrgueres, 6,4%.
Quando o consumo muda, o imóvel sente depois
Pense em um shopping center, um strip mall americano ou um centro de conveniência brasileiro.
A renda desses ativos depende, no fim, da capacidade dos seus ocupantes de vender o suficiente para pagar aluguel.
Se milhões de consumidores passam a comer menos determinados produtos e mais outros, o impacto no imóvel não começa necessariamente na vacância.
Antes dela aparecem outros sinais.
Queda de venda por metro quadrado.
Menor capacidade de absorver aumentos de aluguel.
Menos interesse por expansão.
Mais pressão sobre determinadas operações.
Depois vem o tenant mix.
Um restaurante que perde 8% de receita não devolve automaticamente sua loja. Mas combine essa queda com custo de mão de obra, insumos, aluguel e juros, e a conta começa a ficar mais apertada.
Nos Estados Unidos, restaurantes já começam a adaptar cardápios, porções e posicionamento à expansão dos GLP-1. Consumidores dividem pratos, pedem menos acompanhamentos e reduzem o consumo de bebidas alcoólicas.
Ao mesmo tempo, formatos com refeições menores, mais proteína e maior possibilidade de personalização parecem fazer mais sentido para esse público.
Não acho que isso signifique o fim das praças de alimentação.
Mas pode significar uma mudança relevante em quem performa melhor dentro delas.
Só que o dinheiro não desaparece
Se o efeito do mounjaro fosse apenas fazer as pessoas comerem menos, a conclusão para o imobiliário seria relativamente simples.
Só que parte do dinheiro economizado está aparecendo em outros lugares.
A PwC encontrou aumento de 9,9% no gasto com vestuário entre usuários de GLP-1 seis a oito meses depois do início do tratamento.
Entre os entrevistados, 73% disseram ter passado por uma mudança relevante no tamanho das roupas. Vestidos, jeans, moda praia e joias estiveram entre as categorias com aumento de gastos.
Faz sentido. Quem perde 10, 15 ou 20 quilos precisa trocar uma parte do guarda-roupa.
Mas provavelmente existe algo além da necessidade prática. Uma mudança corporal dessa magnitude também pode alterar a relação da pessoa com moda, aparência e consumo.
O Financial Times chegou a levantar neste ano uma provocação interessante: os GLP-1 poderiam ajudar os shopping centers?
A hipótese passa justamente pela combinação entre troca de guarda-roupa, aumento do consumo de moda e maior interesse por produtos e serviços ligados à aparência e ao bem-estar.
O mesmo medicamento que pressiona parte da alimentação pode, portanto, favorecer outras categorias dentro do mesmo shopping.
E depois vem a academia
Eles não estão apenas comendo diferente. Muitos estão se exercitando mais.
O Morgan Stanley encontrou que cerca de 70% das pessoas que começam um GLP-1 relatam se exercitar frequentemente, contra 35% antes do tratamento.
Na pesquisa da PwC, 36% disseram ter aumentado atividades como caminhada, corrida, ciclismo ou natação. Outros 21% aumentaram treinamento de força.
Isso se soma a uma transformação que já vinha acontecendo no varejo.
Academias boutique, Pilates, wellness, beleza e serviços ligados a saúde e aparência vêm ocupando cada vez mais espaço em centros comerciais.
Em 2026, operadores de fitness e wellness nos Estados Unidos devem abrir centenas de novas unidades.
Estimativas da CBRE apontam para cerca de 139.355 metros quadrados adicionais de demanda por lojas somente por parte de redes especializadas de fitness.
Não dá para colocar essa conta na porta do mounjaro.
Envelhecimento, redes sociais e uma preocupação maior com saúde e aparência já empurravam essa tendência antes de os GLP-1 ganharem escala.
O ponto é outro: eles parecem reforçar um comportamento que já estava em curso.
Talvez o efeito esteja justamente aí
Quando comecei a pesquisar o assunto, imaginei uma relação mais linear. Menos comida, menos receita para restaurantes, algum efeito sobre varejo.
Os dados contam uma história um pouco diferente.
Os GLP-1 parecem redistribuir consumo. Menos calorias, snacks e fast-food. Possivelmente menos álcool. Mais proteínas. Mais roupas. Mais exercícios.
Mais interesse por saúde, aparência e wellness.
A PwC encontrou outro sinal interessante: 80% dos usuários atuais utilizam pelo menos algum produto ou serviço complementar ao tratamento, mas somente 23% dizem se sentir bem atendidos pelas plataformas de wellness disponíveis.
Nutrição, treinamento de força, acompanhamento médico, saúde mental e monitoramento começam a formar uma camada de serviços ao redor desse consumidor.
Parte disso será resolvida pelo celular. Outra parte precisa de espaço físico.
Clínicas, nutricionistas, academias, recovery, wellness e outros formatos podem disputar justamente os metros quadrados deixados por categorias que crescerem menos.
Isso se conecta a outro movimento que já existe no mercado americano: o chamado medtail, a ocupação de espaços tradicionalmente destinados ao varejo por clínicas e outros serviços de saúde.
Os GLP-1 não criaram essa tendência.
Mas podem acelerá-la.
E o residencial?
É possível imaginar apartamentos com cozinhas menores, mudanças no consumo residencial ou até impactos na demanda por determinadas tipologias.
Mas não encontrei evidência suficiente para sustentar essas conclusões hoje.
Seria fácil transformar o tema em uma lista de previsões curiosas. Mais difícil é separar o que já aparece nos dados do que ainda é especulação.
Por enquanto, o efeito que me parece mais concreto está nos ocupantes dos imóveis comerciais.
Para quem investe ou desenvolve shopping centers, street retail, centros de conveniência ou projetos mixed-use, vale se questionar:
Quanto da renda do meu ativo depende de categorias que podem perder ou ganhar participação no consumo à medida que os GLP-1 crescem?

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