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ABERTURA
A Arabia Saudita entrou no radar de muita gente por conta da Liga Saudita e a Copa do Mundo 2034. Mas no nosso campo, uma onda de rodadas de investimentos em construtechs locais foi o que chamou a atenção.
Casos como a WakeCap (US$ 28M), focada em dados e segurança/produtividade no canteiro via wearables; a BRKZ (US$ 17M), voltada a compras e supply de materiais de construção; e a Buildnow (US$ 9,7M), que usa crédito para destravar a cadeia de suprimentos da obra, ajudam a ilustrar essa onda.
Mas o que está por trás de tudo isso? No Investor track de hoje trouxemos um panorama sobre o momento de mercado de construção e imobiliário na Arábia Saudita.
No conteúdo de hoje:
🇸🇦 A construção civil como motor da transição econômica e cultural da Arábia Saudita.
🏠 Como o Programa Sakani está usando crédito e tecnologia para elevar a posse de imóveis para 70%.
🚧 Os riscos da explosão: como a pressão sobre custos e a escassez de 500 mil trabalhadores afetam os megaempreendimentos.
📈 As métricas que confirmam o crescimento de 7,0% do mercado imobiliário até 2033.
🤝 O desafio final: por que a rentabilidade depende agora da disciplina de execução e não apenas da ambição dos anúncios.
#1
A construção como instrumento de reinvenção nacional

A Arábia Saudita está utilizando o setor imobiliário como pilar estratégico para algo muito maior: sua transição econômica e cultural.
A Visão 2030, plano nacional liderado pelo príncipe Mohammed bin Salman, não é apenas uma agenda de desenvolvimento – é um mecanismo geopolítico de reposicionamento do país. E o motor dessa virada é a construção civil.
A escala é absurda: são mais de US$ 1,25 trilhão em investimentos já em curso, com megaempreendimentos urbanos, resorts de luxo sustentáveis, cidades digitais e infraestrutura logística integrada. O símbolo máximo dessa ambição é o NEOM, cidade futurista de US$ 500 bilhões.
O mercado imobiliário saudita atingirá US$ 174 bilhões até 2030, crescendo a um CAGR de 8,7% – número inalcançável nos mercados maduros.
Três forças estruturais impulsionam o boom saudita
1. Petrodólares virando infraestrutura
Com a volatilidade do petróleo e o declínio da demanda global por combustíveis fósseis no horizonte, a Arábia Saudita entendeu que sua janela de bonança precisa ser convertida em ativos tangíveis e duradouros. É por isso que 20% do PIB não petrolífero já está atrelado à construção.
2. Demanda estrutural por habitação
O país tem uma das populações mais jovens do mundo: 70% tem menos de 35 anos. Isso, combinado ao crescimento de expatriados e novas permissões para propriedade estrangeira (válidas a partir de 2026), forma uma demanda orgânica explosiva por residências.
3. Turismo como vetor de transformação
A meta é saltar de 27 milhões para 100 milhões de visitantes até 2030. Para isso, estão sendo criadas verdadeiras “experiências territoriais”, como o Red Sea Project e Diriyah Gate. Isso redefine o real estate local como vetor de exportação de imagem – e receita.
#2
O Programa Sakani: Habitação Acessível como Pilar de Estado
Dentro da nova lógica de “execução com impacto”, o Programa Sakani se consolidou como a espinha dorsal da política habitacional saudita.
Lançado em 2017 e reformulado ao longo dos últimos anos, o Sakani é o principal instrumento de entrega de moradias acessíveis no Reino.
Seu objetivo é ambicioso: elevar a taxa de posse de imóveis de 47% (em 2016) para 70% até 2030, com foco em famílias de baixa e média renda.
Em 2025, o programa já entregou mais de 500 mil unidades habitacionais, distribuiu mais de SAR 50 bilhões em subsídios diretos (~USD 13,3 bilhões), e movimenta uma cadeia produtiva estimada em 750 mil empregos diretos no setor de construção.
Mas o diferencial está na sofisticação do modelo:
Subsídios e financiamentos sob medida, com empréstimos islâmicos sem juros (Murabaha), refinanciamento digital e apoios à autoconstrução.
Distribuição de terrenos urbanizados com infraestrutura, integrados a projetos de uso misto em cidades como Riade e Jidá.
Parcerias com o setor privado para execução em escala, envolvendo gigantes como Emaar e Dar Al Arkan.
Plataforma 100% digital (App Sakani), com 135 mil usuários ativos, simulações de elegibilidade e gestão automatizada da jornada do beneficiário.
Mais recentemente, o programa passou a integrar critérios ESG (certificações LEED, metas de redução de carbono, inclusão feminina) e iniciou projetos piloto com IA e blockchain para prever demanda e evitar fraudes em hipotecas.
#3
Todo projeto tem seus desafios
Sabemos bem, quais efeitos acabam sendo causados quando se tem uma explosão no número de obras e empreendimentos imobiliários. Não é muito diferente por lá.
Pressões sobre custos e execução
Aço, cimento e materiais subiram 15-20% nos últimos.
Escassez de 500 mil trabalhadores ameaça cronogramas.
Congelamento de aluguéis em Riad até 2030 limitando retorno de certos ativos.
Complexidade regulatória
Burocracia ainda emperra aprovações.
Abertura a estrangeiros (Lei de Propriedade para Não Sauditas entra em vigor em 2026) exige cautela jurídica e parceiros locais fortes.
Pressão fiscal e dependência do petróleo
Déficit orçamentário previsto de US$ 44 bi em 2026.
Apesar da diversificação, ainda há alta correlação com o petróleo (0,7).
A consequência disso é que para realizar suas ambições o país precisa de quase tudo: capital, mão de obra, expertise técnico, empreendedores, tecnologia.
Oportunidade para quem quiser investir por lá.
#4
Alguns grandes números sobre o momento do mercado imobiliário saudita
Para além dos headlines sobre “mega” e “giga” projetos, o mercado imobiliário saudita em 2025 apresenta um conjunto sólido de fundamentos que justificam o crescente interesse de capital institucional, family offices e desenvolvedores globais.
Aqui estão alguns indicadores e métricas que traduzem esse momento:
Tamanho e Crescimento de Mercado
Tamanho do mercado imobiliário em 2025: USD 77,2 bilhões
Crescimento projetado (CAGR até 2033): 7,0% ao ano
Setor de construção civil: USD 101,4 bilhões em 2025, com projeção de atingir USD 138 bilhões até 2034
Segmentação e Demanda
Segmento residencial: USD 19,6 bilhões em 2025, com 5,2% de CAGR
60% do total do mercado imobiliário
Foco em moradias mid-range e compactas (urbanização vertical)
Transações residenciais em Riade (2024 vs. 2025): crescimento de +51%
Demanda anual por novas unidades: estimada em 100.000 a 150.000 unidades/ano
Rentabilidade e Retorno (Yield)
Yield médio no residencial mid-range: 6,5% a 8%
Yield em hospitalidade de médio porte (ex: Red Sea): 10% a 12%
Segmento industrial/logístico (King Abdullah Economic City, Taybah): 7% a 9%
Taxa Interna de Retorno (IRR) projetada em Sakani/PPP: 8% a 12%
Liquidez e Crédito
Volume de hipotecas emitidas em 2024: SAR 91,1 bilhões (~USD 24 bilhões)
Penetração de hipotecas no PIB não petrolífero: saltou de 7% (2015) para 22% (2024)
Presença de REITs (ex: Derayah, Al Rajhi Capital): com valorização de +20% em 2025
Apoio governamental via Saudi Real Estate Refinance Company (SRC): alta liquidez no mercado secundário
Dinâmica de Preços e Valorização
Preço médio de vilas em Riade (2025): valorização de +11,6% YoY
Apartamentos em Riade: +1,2% YoY (saturação em algumas faixas)
Inflação de aluguéis residenciais: variando entre 7% e 10%
Aluguéis Classe A em escritórios em Riade: aumento de +31% YoY
Vacância de escritórios Classe A em Riade: 2% a 3% (ocupação técnica máxima)

#5
Em resumo: a Arábia Saudita hoje combina tamanho, crescimento, liquidez e apoio institucional, mas com foco claro em disciplina de execução e entrega com impacto.
É um mercado em que os retornos estão cada vez mais vinculados à capacidade de execução – e não mais à ambição do anúncio.
No futebol, uma constelação de craques liderou o movimento tornando a Liga Saudita símbolo no esporte.
Agora a busca do governo é atrair talentos que ajudem a alavancar o mercado construtivo.
Quem será o Cristiano Ronaldo do imobiliário que topará se aventurar por lá?

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